quinta-feira, 30 de agosto de 2012

71ª edição (1999) - Lista Completa dos Indicados


Da esquerda para a direita, os vencedores, respectivamente, nas categorias de Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante: Roberto Benigni (também nominado como Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original), Judi Dench (na segunda interpretação mais curta a ser premiada), Gwyneth Paltrow e James Coburn, nas únicas vitórias de suas carreiras.

Confira abaixo todos os títulos indicados na 71ª edição do Oscar:

  1. A Qualquer Preço, de Steven Zaillain. Texto de Celo Silva.

  1. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick. Texto de Luís Adriano de Lima.

  1. Amor Além da Vida, de Vincent Ward – 2 indicações.
    • Melhor Direção de Arte
    • Melhores Efeitos Visuais - venceu

  1. Um Amor Verdadeiro, de Carl Franklin. Texto de Renan Prado.

  1. Armageddon, de Michael Bay – 4 indicações.
    • Melhor Som
    • Melhor Edição de Som
    • Melhores Efeitos Especiais
    • Melhor Canção Original: I Don’t Want to Miss a Thing

  1. O Avô, de José Luís Garci.
    • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Espanha

  1. Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, de George Miller.
    • Melhor Canção Original: That’ll Do

  1. Bem-amada, de Jonathan Demme.
    • Melhor Figurino

  1. Bunny, de Chris Wedge.
    • Melhor Curta-Metragem Animado- venceu

  1. La Carte Postale, de Vivian Goffete.
    • Melhor Curta-Metragem Não-Animado

  1. The Carterbury Tales, de vários diretores.
    • Melhor Curta-metragem Animado

  1. Central do Brasil, de Walter Salles. Texto de Luís Adriano de Lima.

  1. Culture, de Josh Gordon e Will Speck.
    • Melhor Curta-Metragem Animado

  1. Dancemaker, de Matthew Diamond.
    • Melhor Documentário

  1. Deuses e Monstros, de Bill Condon. Texto de Ivanildo Pereira.

  1. Elizabeth, de Shekhar Kapur. Texto de Ivanildo Pereira.

  1. O Encantador de Cavalos, de Robert Redford.
    • Melhor Canção Original: A Soft Place to Fall

  1. A Espada Mágina – A Lenda de Camelot, de Frederik Du Chau.
    • Melhor Canção Original: The Prayer

  1. Farm: Angola, USA, de Liz Garbus, Wilbert Rideau e Jonathan Stack.
    • Melhor Documentário

  1. Filhos do Paraíso, de Majid Majidi.
    • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Irã

  1. Hilary e Jackie, de Anand Tucker. Texto de Celo Silva.

  1. Holiday Romance, de J. J. Keith.
    • Melhor Curta-Metragem Não-Animado

  1. Irresistível Paixão, de Steven Soderbergh. Texto de Alan Raspante.

  1. Jolly Roger, de Mark Baker.
    • Melhor Curta-Metragem Animado

  1. Last Days, de James Moll.
    • Melhor Documentário - venceu

  1. Laura – A Voz de Uma Estrela, de Mark Herman. Texto de Alan Raspante.

  1. Lenny Bruce: Swear to Tell the Truth, de Robert E. Weide.
    • Melhor Documentário

  1. A Máscara do Zorro, de Martin Campbell – 2 indicações.
    • Melhor Som
    • Melhor Edição de Som

  1. More, de Mark Osborne.
    • Melhor Curta-Metragem Animado

  1. Mulan, de Tony Bancroft e Barry Cook.
    • Melhor Trilha Sonora Original (Comédia / Musical)

  1. Når livet går sin vej, de Stefan Fjeldmark e Karsten Kiilerich.
    • Melhor Curta-Metragem Animado

  1. A Outra História Americana, de Tony Kaye. Texto de Renan Prado.

  1. Patch Adams – O Amor É Contagioso, de Tom Shadyac.
    • Melhor Trilha Sonora Original (Comédia / Musical)

  1. The Personals, de Keiko Ibi.
    • Melhor Documentário Curto – venceu

  1.  A Place in the Land, de Charles Guggenheim.
    • Melhor Documentário Curto

  1. Um Plano Simples, de Sam Raimi. Texto de Luís Adriano de Lima.

  1. Poderoso Joe, de Ron Underwood.
    • Melhores Efeitos Visuais

  1. Politicamente Incorreto, de Warren Beatty. Texto de Ivanildo Pereira.

  1. O Príncipe do Egito, de Brenda Chapman, Steve Hickner e Simon Wells.
    • Melhor Canção Original: When You Believe - venceu

  1. Regret to Inform, de Barbara Sonnenborn.
    • Melhor Documentário

  1. O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Texto de Celo Silva.

  1. Segredos do Poder, de Mike Nichols. Texto de Celo Silva.

  1. Shakespeare Apaixonado, de John Madden. Texto de Renan Prado.

  1. O Show de Truman, de Peter Weir. Texto de Luís Adriano de Lima.

  1. Sunrise over Tiananmen Square, de Shui-Bo Wang.
    • Melhor Documentário Curto

  1. Tango, de Carlos Saura.
    • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Argentina.

  1. Temporada de Caça, de Paul Schrader. Texto de Luís Adriano de Lima.

  1. Valgaften, de Anders Thomas Jensen.
    • Melhor Curta-Metragem Não-Animado – venceu

  1. Velvet Goldmine, de Todd Haynes
    • Melhor Figurino

  1. Victor, de Joel Bergvall e Simon Sandquist.
    • Melhor Curta-Metragem Não-Animado

  1. Vida de Inseto, de John Lasseter e Andrew Stanton.
    • Melhor Trilha Sonora Original (Comédia / Musical)

  1. A Vida É Bela, de Roberto Benigni. Texto de Alan Raspante.

  1. A Vida em Preto em Branco, de Gary Ross – 3 indicações.
    • Melhor Direção de Arte
    • Melhor Figurino
    • Melhor Trilha Sonora Original (Drama)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Opinião 5


Momento polêmico da noite: Marin Scorsese e Robert De Niro premiam Elia Kazan, diretor que, apesar da qualidade dos seus filmes, causou muita polêmica ao delatar seus colegas de indústria ao Comitê de Causas Não-Americanas, resultando na destruição parcial ou total de muitos profissionais. Vale ressaltar que Kazan, à época dos acontecimentos (década de 1950), afirmou ter apenas revelado nomes que já eram de conhecimento público.

A 71º Edição dos Academy Awards foi mais uma consagração do cinema norte-americano, mas, desta vez, com uma pitada da internacionalização que também salpicava a economia e a política no final dos anos 90.

Se por um lado temos “Shakespeare Apaixonado” (1998) – que inclusive premiou Gwyneth Paltrow, uma americana por interpretar uma britânica – levando as maiores honrarias para casa e ao seu lado "O Resgate do Soldado Ryan" (1998) tomando para si a segunda leva de premiações – que incluíram mais prêmios técnicos, fazendo jus a esse caráter tecnicista de Spielberg –, do lado oposto temos a presença latina de Itália e Brasil na premiação. "A Vida é Bela" (1997) e "Central do Brasil" (1998) levaram indicações não somente na categoria específica de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas também mostraram ao mundo pontos especiais que figuravam nesses longas. Enquanto o filme brasileiro deu a Fernanda Montenegro a primeira e única indicação do país verde-amarelo em categorias de atuação, o filme de Roberto Benigni também concorreu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original, só citando as mais importantes. Não tão distante assim temos a australiana Cate Blanchett mostrando todo o seu potencial artístico no ótimo "Elizabeth" (1998) na qual interpretava a rainha Elizabeth I.

Saindo dessa polarização entre o cinema norte-americano e o não-hollywoodiano, podemos dizer que o cinema hollywoodiano em 1999 também foi foco da retratação de guerras e conflitos. Nesse sentido podemos citar, além de "O Resgate de Soldado Ryan", a volta de Terrence Malick com o seu bom "Além da Linha Vermelha" (1998). Talvez forçando um pouco a idéia de guerra, "A Outra História Americana" (1998)  e “A Vida é Bela” nos mostra como um conflito que acabou há tanto tempo ainda pode nos chocar pela dureza dos ideais pregados durante o nazismo.

Por fim, mesmo tentando enxergar a premiação com diversas lentes, a que mais nos salta os olhos – e que mais comumente é discutida – é o merecimento de “Shakespeare Apaixonado” nos Oscar de 1999. Entendo que, na situação mundial da época  em que os conflitos que se solidificariam  na Guerra do Iraque estavam começando e com os problemas de níveis globais, tudo que a Academia queria pregar era o amor, puro e simples.  Talvez a estratégia não tenha dado certo, e pode ser que, como resultado, tenhamos ficado com uma das maiores marmeladas da história do Oscar. 

por Renan do Prado Alves

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Opinião 4


Palco do Dorothy Chandler Pavilion, teatro no qual aconteceu a entrega dos prêmios em 1999.

A edição do Oscar de 1999 trouxe algumas surpresas, principalmente pelas vitórias de “Shakespeare Apaixonado” (1998), tanto em Melhor Filme quanto em Melhor Atriz (Gwyneth Paltrow) e também pela consagração do ator/diretor italiano Roberto Benigni (venceu Melhor Ator) e seu “A Vida É Bela” (1997), que também levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar de o diretor americano Steven Spielberg ter sido agraciado com o prêmio de Melhor Diretor por “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), a sua superprodução de guerra foi uma das injustiçadas da noite. A meu ver, o filme de Spielberg era superior a todos os indicados, até mesmo o superestimado “Além da Linha Vermelha” (1998), de Terrence Malick.

O diretor Terrence Malick, então vivendo um longo hiato artístico, respirava ainda os ares da New Hollywood e fez um filme aos moldes dos anos 70, mesclando existencialismo com natureza em meio a um cenário de guerra. Para uns, uma obra-prima, para outros, um filme ultrapretensioso, mas é precioso evidenciar que Malick é dono de um estilo bem próprio e não seria estranho se arrebatasse a estatueta de Melhor Diretor, entregue a Spielberg. Aliás, o trabalho de Spielberg na direção de “O Resgate do Soldado Ryan” é primoroso, principalmente pela abertura situada no fatídico dia D. Até então, nunca um filme de guerra foi tão visceral (literalmente).

 Norman Jewison, um dos homenageados da noite, tendo recebido o Prêmio Memorial Irving G. Thalberg. O diretor foi responsável pelos famosos filmes "No Calor da Noite" (1967), "Um Violinista no Telhado" (1971) e "Feitiço da Lua" (1987). Apesar de nominado 7 vezes, nunca ganhou um Oscar.

Entre os vencedores, ainda destacam-se pela qualidade o trabalho do diretor e roteirista Bill Condon, que justamente levou a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado por “Deuses e Monstros” (1998). A produção ficcional inspirada no diretor do ciclo clássico do filmes de terror da Universal Studios, James Whale, é um pérola narrativa, mesclando o imaginário com o real e nos brindando com uma atuação marcante e também indicada ao Oscar do ator inglês Ian McKellen. Essa é uma das injustiças mais gritantes dessa temporada, apesar de carismática, nunca a atuação de Benigni superará a de McKellen, provavelmente em seu melhor momento aqui. No entanto, se pensarmos bem, a vitória de Benigni condiz com o perfil da academia em gratificar personagens edificantes.

Em um ano em que as produções com temáticas de guerra estavam em alta, ainda tivemos algumas realizações de época em voga, principalmente o vencedor “Shakespeare Apaixonado” e o drama “Elizabeth” (1998), focado na vida da Rainha Elizabeth I, e que rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Judi Dench, em uma atuação de no máximo 7 minutos (talvez a menor para um oscarizado). O nosso cinema também foi lembrado com louvor, sendo nomeado a Melhor Filme Estrangeiro por “Central do Brasil” (1998) de Walter Salles e Melhor Atriz para a veterana Fernanda Montenegro. Entre os estudiosos nacionais do Oscar, existe certo consenso de que Montenegro detinha a melhor atuação entre as indicadas, apesar de particularmente acreditar que a britânica Emily Watson era a mais consistente com a sua Jackie du Pré no biodrama musical “Hilary e Jackie” (1998).

A edição de 1999 pode não ter sido uma das mais significativas para a história do Oscar, mas mesmo assim trouxe filmes significativos para o imaginário da 7ª Arte. Até hoje suas principais realizações são saudadas pelo público e assim como afirmaram o talento de experientes nomes (Spielberg, Malick) também abriu as portas para novos talentos, como Gwyneth Paltrow, que desde então mostrou uma grande evolução em seus trabalhos, apesar de nunca ter ganhado novamente o Oscar. Também jogou uma bem-vinda luz sobre o combalido cinema nacional do final do século 20 e somente por isso, posso dizer que foi uma temporada de significantes valias.

por Celo Silva

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Opinião 3

O amor e a guerra: a polarização apresentada por “Shakespeare Apaixonado” e “O Resgate do Soldado Ryan”

Da esquerda para a direita: David Parfitt, Donna Gigliotti e Harvey Weinstein,
produtores de "Shakespeare Apaixonado"; e Tom Stoppard e Marc Norman,
os roteiristas do filme.

Pensar na 71ª edição do Oscar imediatamente me remete à repetição. Não apenas porque os títulos principais se dividiam em dois temas (corte elisabetana e Segunda Guerra Mundial), mas também porque inúmeros intérpretes aparecem em vários títulos, criando uma sensação de que, às vezes, embora estejamos assistindo a um filme que nos é inédito, já vimos aquela obra antes. Para esclarecer um pouco mais, Kathy Bates, Geoffrey Rush, John Travolta, George Clooney e Joseph Fiennes são atores que estiveram em mais de uma fita, sendo que os dois primeiros citados receberam indicações nas categorias de coadjuvantes.

Além disso, as tantas biografias que surgem entre os nominados: “Além da Linha Vermelha” (1998), autobiografia do escritor James Jones, em cujo romance o filme se baseou; “Elizabeth” (1998), narrando a ascensão da personagem-título; “Deuses e Monstros” (1998), que apresenta a vida do diretor hollywoodiano James Whale; “Hilary e Jackie” (1998), contando a história conflituosa das irmãs musicistas du Pré; “A Qualquer Preço” (1998), sobre a tentativa de Jan Schlichtmann, advogado, de mover uma ação contra uma empresa responsável pela contaminação da água de uma região, o que eventualmente levou à morte de várias pessoas. Ainda, não se pode esquecer a “biografia” de Bill Clinton, apresentada no filme “Segredos do Poder” (1998).

Apesar da sensação de “mais do mesmo”, não se pode negar a existência de duas grandes obras – “Shakespeare Apaixonado” e “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) – e de alguns outros pequenos grandes filmes, como é o caso de “Um Plano Simples” (1998), muito funcional na sua narrativa, “Central do Brasil” (1998), que não apenas alçou o Brasil a uma notabilidade essencial para o próprio público brasileiro, como apresenta uma das maiores intérpretes do cinema nacional naquela que é potencialmente a sua melhor interpretação, e “O Show de Truman” (1998), cujo debate sociológico é, provavelmente, um dos melhores que o cinema já proporcionou.

Mais uma vez indicada por um filme de
Madden, Judi Dench ganhou a estatueta.
O vencedor da noite, título do inglês John Madden, provoca ainda hoje inúmeros problemas de aceitação por parte dos cinéfilos – como, afinal, essa obra sagrou-se a melhor, em detrimento da fita de Spielberg? Embora eu não concorde com o resultado da Academia, não vejo deméritos em “Shakespeare Apaixonado”, que considero uma obra bastante proveitosa, de singeleza exemplar e de roteiro que prova ser perfeitamente possível trabalhar uma história simples e, ainda assim, torná-la apaixonante. Talvez isso não seja visível numa primeira conferida – não é à toa que eu precisei rever o filme umas duas ou três vezes até enxergar tudo que há de belo e eficiente nele, desde a direção de arte e som ao figurino, maquiagem e atuações, das quais se destaca, com notável evidência, a de Judi Dench, que reinou soberana entre as indicadas e merecidamente conquistou sua estatueta.

“O Resgate do Soldado Ryan”, no entanto, traz consigo toda a realidade e crueza de um momento trágico, apresentando um roteiro que não só se ocupa em narrar uma jornada, mas igualmente apresenta uma crítica feroz a um país que não se sensibiliza ao entrar numa guerra e perder muitas vidas, todavia, contraditoriamente, se condiciona a resgatar um único soldado. Uma crítica maravilhosa a uma política alicerçada em hipocrisia. A somar, uma linearidade eficaz que impede o espectador de se estafar, apesar de o filme se estender por quase três horas. Decerto, o meu favorito dessa edição, o filme que deveria angariar o maior número de votos e sagrar-se o melhor da noite de 21 de março de 1999, data da entrega dos prêmios. Spielberg, pelo menos, foi compensado com a estatueta de Melhor Diretor, a segunda de carreira (a primeira fora conquistada em 1994, pela direção de “A Lista de Schindler”, do ano anterior).

O terrível retrato da guerra em "O Resgate do Soldado Ryan".

Trata-se de uma cerimônia bastante estranha, sobretudo pela abertura concedida aos filmes estrangeiros, sendo dois deles de destaque: “Central do Brasil”, brasileiro, em uma categoria de atuação, e “A Vida É Bela” (1997), italiano, que inclusive conquistou espaço na categoria principal, o que, para um filme de língua não-inglesa, havia acontecido apenas uma vez, 29 anos antes, quando “Z” (1969), de Costa-Gavras, realizou o feito. Tendo havido tal espaço para filmes de língua estrangeira, me surpreende tanta bajulação para a obra de Roberto Benigni, que se trata de uma fita bastante insatisfatória. Consideraram o italiano o Melhor Ator da noite, ainda que fosse o único de interpretação sofrível dentre os indicados, mas ignoraram Fernanda Montenegro, que apresentou o desempenho mais completo dentre as atrizes. Paradoxos da Academia, evidente, provavelmente um ato sem explicação plausível.

“Além da Linha Vermelha” é um exercício estafante de monotonia. “Elizabeth”, produção inglesa, alavancou a carreira de Cate Blanchett, que fez por merecer sua nominação. Enxergo, porém, a edição como uma polarização entre Shakespeare in Love e Saving Private Ryan, dois títulos que merecem atenção pela sua qualidade artística e técnica e que imperam em relação aos outros nominados. Mostram-se como oposição de temas também: o negativo da guerra em oposição ao positivo do amor; o cruel do front de batalha em oposição à beleza da paixão arrebatadora; um cenário tipicamente masculino em oposição a um cenário no qual há luta da mulher para se inserir nele; a direção crua de Spielberg em oposição ao roteiro enfeitado de Marc Norman e Tom Stoppard. Entre a brutalidade e a redenção vindas de dois filmes grandiosos e plenamente capazes de serem merecedores do prêmio máximo, os votantes sucumbiram à delicadeza da relação impossível de Shakespeare e Viola de Lesseps, num enredo que eficientemente mistura realidade e ficção, resultando num romance verdadeiramente cinematográfico, a que se assiste com prazer. Ainda que meu favorito seja outro, a força da obra de John Madden merece reconhecimento, não os rechaços costumeiros. Contudo, mesmo que a obra do diretor inglês tenha recebido o Oscar de Melhor Filme – o último até hoje, aliás, do gênero comédia/romance a conquistar estatueta máxima –, o melhor da temporada, a meu ver, era “O Resgate do Soldado Ryan”, cuja pungência nos faz admirar a cada instante o drama dos soldados cujas vidas parecem estar sempre no seu último momento. O último momento, verdadeiramente, deveria ter sido o Oscar.

por Luís Adriano de Lima

domingo, 26 de agosto de 2012

Opinião 2

Steven Spielberg, premiado pela segunda vez com um Oscar de Melhor Diretor.
A primeira vez havia sido em 1994, quando venceu pelo filme "A Lista de Schindler" (1993).

A cerimônia de entrega do Oscar em 1999 não teve um grande favorito, como “Titanic” (1997), no ano anterior. A disputa foi polarizada entre a superprodução de guerra “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) de Steven Spielberg, e o mais modesto “Shakespeare Apaixonado” (1998) de John Madden. “Shakespeare” foi produzido pela Miramax de Harvey Weinstein, produtor que fez fama e fortuna aproximando a sensibilidade de realizadores independentes das grandes massas. Já “Ryan” foi feito pela máquina de Hollywood, pelo diretor mais bem sucedido da história do cinema. No final das contas, ambos saíram consagrados, embora “Shakespeare” tenha ganhado prêmios mais importantes (filme, roteiro original, atriz para Gwyneth Paltrow e atriz coadjuvante para Judi Dench). “Ryan” levou o de melhor diretor para Spielberg (o segundo de sua carreira) e outros prêmios técnicos absolutamente merecidos. Até hoje persiste o debate entre os cinéfilos sobre quem de fato merecia a estatueta de melhor filme – e para muitos, a vitória de “Shakespeare” é considerada uma das maiores mancadas da Academia. O que é injusto, pois apesar de não ser uma obra-prima do cinema, “Shakespeare Apaixonado” é divertido e encantador.

James Coburn: o Melhor Ator Coadjuvante.
Harvey Weinstein e a Miramax também fizeram a sua mágica funcionar ao emplacar “A Vida é Bela” (1997), falado em italiano, entre os concorrentes a Melhor Filme (acabou premiado como Melhor Filme Estrangeiro), e conseguindo uma vitória para Roberto Benigni como Melhor Ator. Embora “A Vida é Bela” seja querido pelo público e tenha muitas qualidades, não se pode deixar de observar que sua aclamação no Oscar foi exagerada.

Contudo, foi um ano de grandes filmes, e muitos estiveram no Oscar de algum modo. “Irresistível Paixão” (1998) estabilizou as carreiras de George Clooney e Steven Soderbergh, e ambos partiram para grandes feitos (no Oscar, inclusive). “Elizabeth” (1998) extraiu drama e suspense de um momento histórico, atraiu público e revelou a todos o talento de Cate Blanchett. O emocionante “Deuses e Monstros” (1998) trouxe a melhor atuação da carreira de Ian McKellen e iniciou a carreira de seu roteirista/diretor, Bill Condon. O Brasil viu “Central do Brasil” (1998) e Fernanda Montenegro ganharem o mundo, num grande trabalho de Walter Salles. “O Show de Truman” (1998) emociona e causa debate até hoje, e mostrou ao mundo que havia algo mais em Jim Carrey além de caretas. Edward Norton impressionou com seu papel de neonazista no chocante “A Outra História Americana” (1998). O diretor Sam Raimi deu um tempo no terror e aventuras com sabor de filmes B e surpreendeu, entregando um dos melhores dramas/suspenses do ano com “Um Plano Simples” (1998), filme irmão de “Fargo” (1996) dos irmãos Coen, consagrado no Oscar alguns anos antes. E o ano ainda presenciou o retorno, após 20 anos, do diretor e roteirista Terrence Malick, cultuado por duas obras-primas nos anos 70 e desaparecido desde então. “Além da Linha Vermelha” (1998), seu filme de guerra, contrasta com o de Spielberg em todos os sentidos possíveis e investiga a relação do homem com a natureza, dentro do microcosmo de uma batalha sangrenta da Segunda Guerra Mundial. De todos os filmes do Oscar daquele ano, era provavelmente o mais autoral e artístico, mas sem chance alguma de ganhar como melhor filme – e de fato, não levou nenhum dos sete prêmios que disputava.

por Ivanildo Pereira

sábado, 25 de agosto de 2012

Opinião


Os bastidores do Oscar: Gwyneth Paltrow e a estueta conquistada pelo desempenho como Viola de Lesseps em Shakespeare in Love. Na imagem, a atriz celebra a vitória ao lado do pai, Bruce Paltrow, falecido em 2002.

A cerimônia do Oscar tenta se reinventar desde sempre. E em 1999 não foi diferente. Ou melhor: foi tão diferente que excedeu os padrões estabelecidos por eles próprios. Talvez seja o medo que o fim de tudo estivesse ali, afinal, era quase 2000. A virada do milênio. Obviamente, que é uma alusão um tanto besta, mas, para uma cerimônia cheia de defeitos (mesmo que tenha tido os seus acertos), chega a ser até mesmo válido. Mas isso é algo que a grande maioria tenta esquecer, até mesmo porque houve rupturas gigantescas de lá pra cá. Digamos que, com o tempo, o Oscar aprendeu a ser mais cauteloso e, claro, estabeleceu um padrão para que não houvesse tais “problemas”.

Benigni vai à loucura ao ouvir seu nome anunciado por Sophia Loren como vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
O problema em questão se deve à suas indicações. É de conhecimento geral que, na cerimônia de 1999, Roberto Benigni ganhou a sua estatueta de Melhor Ator, assim como Gwyneth Paltrow ganhou a sua de Melhor Atriz. Até aí tudo bem, isso se não parássemos para analisar sobre os outros concorrentes. Roberto tem uma boa atuação em “A Vida É Bela” (1997), mas nada que justificasse a sua vitória, ainda mais quando tinha como concorrente o ator Edward Norton que estava em excelente atuação em “A Outra História Americana” (1998). Gwyneth não fica atrás, porém, sua vitória é ainda mais contestadora. Sua atuação é mediana e nada explica sua vitória, sendo que tínhamos uma Fernanda Montenegro em êxtase por sua atuação em “Central do Brasil” (1998). Claro, são dois casos até recorrentes em cerimônias do Oscar, mas posso definir muito bem o “teor” de estranheza que foi esta cerimônia em particular.

Aliás, outro destaque é o fato dos filmes estrangeiros ganharem mais destaques. Afinal, mesmo que o Oscar seja a maior festa e premiação sobre cinema, é também a mais americana, sendo que a maioria dos concorrentes são filmes hollywoodianos. O exemplo que mais se aproxima deste fato é o Oscar deste ano (2012) no qual o filme francês “O Artista” (2011) saiu como grande vencedor. Shakespeare in Love é um bom filme, mas também bastante esquecível e mesmo assim saiu como o grande vencedor da noite. Ou seja: 1999 não é um bom ano para ficar relembrando dentre todas as cerimônias do Oscar. Mas, como já foi dito... É um suspiro de uma época aonde quase houve uma inovação. Pena que escolheram a época e os filmes errados para isso. Enquanto que, atualmente, temos que aguentar um padrão quase nazista em cima dos ganhadores e concorrentes. Afinal, o vencedor nem sempre é o melhor filme da premiação...

por Alan Raspante

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um Plano Simples


UM PLANO SIMPLES (A Simple Plan, 1998, 121 min)
Produção: Estados Unidos / França / Reino Unido / Alemanha / Japão
Diretor: Sam Raimi
Roteiro: Scott B. Smith
Elenco: Bill Paxton, Bridget Fonda, Billy Bob Thorton, Brent Briscoe, Jack Walsh, Becky Ann Baker.

Um avião caído no meio de uma reserva florestal, uma bolsa com 4,5 milhões de dólares e três personagens enclausurados numa vida interiorana sem grandes expectativas para o futuro senão continuar ali, vivendo pacatamente. O título do filme alude àquilo que é mais objetivo no filme: o plano aparentemente simples que os personagens traçam a fim de ficar com o dinheiro e poder mudar de rumo.

A trama é, grosso modo, uma apresentação murphiana e, logo, bastante irônica acerca da história de Hank, Jacob e Lou. O seu plano de salvação – ascensão de uma vida ordinária para algo engrandecedor – é, na verdade, o princípio da decadência física e psicológica de cada um. Jacob, irmão de Hank, não consegue guardar segredo e seu retardo mental sempre coloca a situação dos personagens em risco iminente; Lou, apesar de ter concordado com as regras impostas por Hank, não pretende esperar até o fim do inverno (quando a neve derreterá e o avião será descoberto, podendo haver alguém para reclamar o sumiço do dinheiro) para recolher sua parte; Hank, por sua vez, se descobre numa cilada, já que tanto seu irmão como seu amigo aparentemente são incapazes de levar o plano adiante.

A trama de fim quase shakespeariano e de caráter niilista é baseada no romance de Scott B. Smith, autor que ficou também responsável pela adaptação da obra literária, transformando-a nesse roteiro nominado. A narrativa, apesar de focado no constante suspense de o plano dar certo ou não, também apresenta conflitos familiares bastante nítidos, sobretudo em relação aos personagens principais, Hank e Jacob. Mais do que isso, o filme apresenta uma excelente crítica aos julgamentos superficiais – numa passagem, Sarah (Bridget Fonda), esposa de Hank, afirma que ninguém desconfiaria que um cidadão tão exemplar como seu marido fosse capaz de fazer tudo o que fez; e ela tinha completa razão acerca disso, provando o quanto a sociedade é apenas um jogo de aparências e de crenças embasadas em suposições.

Bill Paxton, Bridget Fonda, Brent Briscoe e Billy Bob Thorton – este nominado pela sua atuação – integram o elenco desse filme criticamente aclamado, sobretudo pelo seu ritmo e pela sua atmosfera sempre tensa. Curioso é ver Sam Raimi na direção, já que o diretor normalmente se dedica a produções de terror de estética trash.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Ator Coadjuvante: Billy Bob Thorton
2. Melhor Roteiro Adaptado: Scott Smith

por Luís Adriano de Lima

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Qualquer Preço


A QUALQUER PREÇO (A Civil Action, 1998, 115 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Steven Zaillian
Roteiro: Steven Zaillian
Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shaloub, William H. Macy, John Litgov, Kathleen Quinlan, Stephen Fry, Kathy Bates, Sidney Pollack.

Baseado em uma história real que, antes da obra cinematográfica, rendeu um livro, o filme A Civil Action, no Brasil ganhou o titulo de “A Qualquer Preço” (1998), teve seu relativo destaque na cerimônia do Oscar de 1999. Não que o filme seja uma maravilha, na verdade, se mostra como uma realização de características tradicionais, mas vale (e muito) pela atuação inspirada de Robert Duvall. A citada interpretação de Duvall lhe rendeu uma bem-vinda nomeação para a categoria de melhor ator coadjuvante. Claro que além do veterano ator, o filme conta com um elenco relativamente talentoso, entre os principais, temos o protagonista John Travolta, e outros coadjuvantes de luxo como Tony Shalhoub, William H. Macy, John Litgow, James Gandolfini, Stephen Fry e o saudoso diretor Sidney Pollack, fazendo uma pequena e marcante participação.

A trama do filme nos coloca na perspectiva de Jan Schilichtman (Travolta), um advogado de lesão corporal mais preocupado no seu montante do dinheiro do que na real integridade do seu cliente. Durante um programa de rádio aonde é a atração principal, ele é interpelado por uma ouvinte que afirma que Jan não deu a devida atenção ao caso de seu filho, uma criança que morreu de leucemia em situações misteriosas. Na intenção de se livrar do caso, Jan vai à pequena comunidade, onde se depara com mais alguns pais com situações semelhantes: todos perderam os filhos em situações misteriosas ou tiveram algum familiar com alguma doença crônica adquirida. As evidências apontam claramente para uma fábrica local, sucursal de multinacionais poderosas. Não tarda até que Jan visione o processo como uma excelente oportunidade para ganhar uma boa quantia em dinheiro e fazer seu nome como advogado. Claro que existem reviravoltas que apontam para resoluções edificantes, mas devemos lembrar que não deixam de ser inspiradas em fatos verídicos e soam críveis na contextualização da história.

O consultor jurídico veterano e “escaldado” vivido por Duvall é um dos pontos altos do filme e facilmente eclipsa Travolta quando aparece em cena. O seu Jerome Facher é o representante de uma das rés (a indústria alimentícia Beatrice) e sua atuação minimalista, porém sensacional, é imbuída de simbolismos, como o inseparável radio de pilhas e a pasta velha e surrada (caracterização para impor respeito pelo seu bocado de experiência). Um de seus melhores momentos se passa em uma particular seqüência, que no meio de uma importante reunião, para invalidar a proposta pretensiosa de Jan, pergunta se pode levar a caneta de brinde. Simplesmente genial. “A Qualquer Preço”, além da nomeação para Duvall na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, levou outra indicação para Melhor Fotografia, mas não faturou nenhuma das duas. O também veterano James Coburn levou a estatueta de coadjuvante por Temporada de Caça, mas não tirou o mérito de Duvall e de sua atuação, que sem dúvida, foi uma das melhores daquele ano.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Ator Coadjuvante: Robert Duvall
2. Melhor Fotografia: Conrad L. Hall

por Celo Silva

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Irresistível Paixão


IRRESISTÍVEL PAIXÃO (Out of Sight, 1998, 123 min)
Produção: Estados Unidos
Diretor: Steven Soderbergh
Roteiro: Scott Frank
Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Catherine Keener, Steve Zahn, Luis Guzmán.

“Irresistível Paixão” (1998) é um filme que aposta num subgênero que vem fazendo bastante sucesso atualmente: comédia romântica com ação. Digamos que é um combo agradável quando bem realizado. Steven Soderbergh já havia percebido isso na década de 90. O filme conta a trama de um importante ladrão de bancos, Jack (George Clooney) que ao fugir da cadeia acaba se deparando com a agente policial Karen (Jennifer Lopez). A moça é tida como refém e ambos vão se conhecendo melhor até ele conseguir fugir e ela correr atrás dele completamente apaixonada.

“Irresistível Paixão” seria um filmaço se tivesse um roteiro melhor desenvolvido. Engraçado perceber que, justamente no seu maior defeito, o filme acabou sendo reconhecido no Oscar. O filme em si é bastante funcional e acaba virando um ótimo entretenimento, mas a linearidade dos fatos é tão confusa que o roteiro acaba deixando bastante a desejar. Claro que pode ser culpa da edição preguiçosa que tenta copiar o estilo do Tarantino, porém, “Irresistível Paixão” possui um plot tão vazio que o roteiro acaba sendo o culpado mesmo.

A estória não sai da mesmice e as ironias contidas em cada diálogo acabam sendo uma sucessão de erros já que o filme vai se tornando cansativo por não sair do lugar comum. O que acaba salvando é a química explosiva de Jennifer Lopez e George Clooney em cena. Fora isso, sobra pouca coisa para avaliar e salvar. Aliás, Soderbergh tem em sua filmografia filmes mais eficazes e direções mais interessantes.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Roteiro Adaptado: Scott Frank
2. Melhor Edição: Anne V. Coates

por Alan Raspante

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Elizabeth


ELIZABETH (idem, 1998, 124 min)
Produção: Reino Unido
Diretor: Shekhar Kapur
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Cate Blanchett, Joseph Fiennes, Geoffrey Rush, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Eric Cantona, Vincent Cassel, John Gielgud, Daniel Craig.

Conspirações, intrigas e suspense – esses elementos dão o tom de “Elizabeth” (1998), a vigorosa dramatização da juventude e os primeiros anos do reinado daquela que ficou conhecida como “rainha virgem” e que assumiu o trono numa época tumultuada da história inglesa. Nascida em meio ao confronto entre católicos e protestantes (e com a ameaça de uma guerra contra a França batendo à porta), a jovem Elizabeth se vê forçada a entrar no jogo perigoso do poder. Cate Blanchett, na época ainda pouco conhecida, conseguiu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz com esse papel. Ela mostra de forma impressionante a transformação de sua personagem, de menina assustada a mulher fria e poderosa.

Dirigido pelo indiano Shekhar Kapur e com roteiro de Michael Hirst (que voltou aos dramas e intrigas da realeza como criador da série “The Tudors”, de 2007), “Elizabeth” é um filme ágil e interessante, com uma produção impecável – a direção de arte e os figurinos foram indicados ao Oscar. No grande elenco, temos um fantástico Geoffrey Rush no papel do ambíguo Walsingham, que se torna o principal conselheiro da rainha; Christopher Eccleston faz o sinistro Duque de Norfolk; Vincent Cassel rouba algumas cenas com sua divertida interpretação do Duque D’Anjou; e Joseph Fiennes, como o interesse romântico de Elizabeth, Robert Dudley – o homem que ela amava e paradoxalmente não pôde ter, apesar do seu poder. Em papéis menores, marcam presença ainda a francesa Fanny Ardant, o diretor e também ator Richard Attenborough, o lendário sir John Gielgud e Daniel Craig, num dos seus primeiros papeis no cinema como um monge assassino.

Kapur e Hirst dão à história um tom de “O Poderoso Chefão” (1972) – as lutas pelo poder, as reuniões sombrias e secretas e os assassinatos não estão tão distantes do épico mafioso – e a trajetória de Elizabeth é semelhante à de Michael Corleone. Acima de tudo, esta é a historia de uma mulher que se tornou a mais poderosa do mundo e deu sua vida pelo país, mesmo perdendo sua alma no processo. Em 2007, Blanchett, Kapur e Hirst se reuniram para uma fraca e dispensável continuação, “Elizabeth: A Era de Ouro”. Mas o brilho deste primeiro filme não se apaga. Uma aula de história e um trabalho empolgante e muito cinematográfico.

INDICAÇÕES (1 vitória):
1. Melhor Filme: Alison Owen, Tim Bevan e Eric Fellner
2. Melhor Atriz: Cate Blanchett
3. Melhor Fotografia: Remi Adefarasin
4. Melhor Direção de Arte: John Myhre e Peter Howitt
5. Melhor Figurino: Alexandra Byrne
6. Melhor Maquiagem: Jenny Shircore – venceu
7. Melhor Trilha Sonora Original (Drama): David Hirschfelder

por Ivanildo Pereira

domingo, 19 de agosto de 2012

Um Amor Verdadeiro


UM AMOR VERDADEIRO (One True Thing, 1998, 127 min)
Produção: Estados Unidos
Diretor: Carl Franklin
Roteiro: Karen Croner
Elenco: Meryl Streep, Renée Zellweger, William Hurt, Tom Everett Scott.

Os suffering movies são aqueles longas em que o enredo gira em torno de uma doença (tal como “Uma Mente Brilhante” (2001), “O Óleo de Lorenzo” (1991) ou até mesmo “Um Amor para Recordar” (2002)) e que, geralmente, traz ao público episódios emocionais e, em alguns casos, até mesmo apelativos. É essa direção que “Um Amor Verdadeiro” (1998) segue.  Salvo as atuações de Meryl Streep e Renée Zellweger, o filme é um emaranhado de clichês.
A história gira em torno de Ellen Gulden (Renée Zellweger), que está tentando trilhar seu caminho profissional em Nova York. Sua jornada se vê interrompida pela doença de sua mãe e pelo fato de ela ter que ir cuidar de sua progenitora. O irmão estuda fora e o pai – pela pressão dessa nova situação – acaba se afastando do núcleo familiar, ou seja, podemos definir o filme, em sua maioria, na relação entre mãe e filha que nunca foram realmente próximas e que, agora, são obrigadas a conviver juntas, gerando assim a essência do filme. Vale lembrar que o formato do longa é uma entrevista (assim como “Entrevista com Vampiro”, de 1994) em que os acontecimentos, obviamente, antecedem a entrevista.

Como dito acima, o longa tem clichês bem demarcados. Tudo está ali, desde a família perfeita se esfarelando até o amor redentor que é capaz de reunir todos. Pessoalmente, este não é o meu gênero preferido, mas o que redime o filme com certeza são as atuações de Streep e Zellweger e a maquiagem, como exemplo de um aspecto técnico. Streep foi indicada ao lado de Gwyneth Paltrow (Shakespeare in Love) e da brasileira Fernanda Montenegro (Central do Brasil). Colocando-a ao lado apenas dessas duas concorrentes, vemos que Meryl era a que menos tinha chance, uma  vez que sua participação é OK, mas nada de excepcional. Acredito que sua indicação se deva a uma ou duas cenas que se destacam no roteiro, sendo uma deles a que ocorre no decorrer da uma hora e meia de iniciado o filme, onde Kate diz duras verdades depois de um casamento de uma vida inteira.

No geral, ‘Um Amor Verdadeiro’ não é o filme do Oscar, pois peca pelo roteiro mediano, assim como as atuações que ficam aquém dos concorrentes.

INDICAÇÃO:
- Melhor Atriz: Meryl Streep.

por Renan do Prado Alves


sábado, 18 de agosto de 2012

O Show de Truman


O SHOW DE TRUMAN (The Truman Show, 1998, 103 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Peter Weir
Roteiro: Andrew Niccol
Elenco: Jim Carrey, Laura Linney, Ed Harris, Noah Emerich, Natascha McElhone, Holland Taylor, Brian Delate, Peter Krause, Judy Clayton.

Desde a queda do feudalismo, implantou-se um sistema de propriedades privadas e trabalho que visava fins lucrativos, resultando em investimento maciço nos meios de produções com a intenção de colher uma grande quantia de capital. Atualmente, as discussões que correlacionam o capitalismo e a ética têm aumentado, principalmente com a influência midiática, que transforma tudo em programa de TV, como, por exemplo, é o caso do reality show Big Brother, que recentemente, na sua edição brasileira, apresentou um suposto caso de estupro e, conseqüentemente, uma polêmica intensa e vultosa financeiramente.

Cito esse reality show em específico por causa de sua estrutura. “O Show de Truman”, filme de 1998, dirigido por Peter Weir, retrata a vivência cotidiana, mas numa proporção bem maior que o BBB e mais ultrajante para o seu protagonista. Truman Burbank é um homem na faixa dos trinta anos, casado com uma mulher que ele verdadeiramente ama e com amigos que são muito próximos – a seu ver, ele é apenas um homem como qualquer outro, sem nenhum atrativo. Foge ao seu conhecimento, porém, que toda a sua vida é um programa de TV e ele a vive sem saber que tudo nela, desde sua esposa até sua casa e seu trabalho, são na verdade parte de um roteiro que é comandado com mãos de ferro por um produtor e editor que alavancam muito dinheiro com a exibição da vida desse homem inocente.

O roteiro de Andrew Niccol é bastante polêmico e parte do interesse do filme se dá pelo questionamento sempre recorrente nessa história, percorrendo vários conceitos – como a ética - cujas definições são essenciais para a compreensão da tragicomédia apresentada aqui, sobre a qual, vale comentar, está repleta de referência a nomes de atores famosos, como os nomes dos personagens Meryl e Marlon, e a praça Lancaster. A Academia se rendeu à direção e ao roteiro e, dentre as atuações, julgou a de Ed Harris como a mais apropriada para uma indicação, concedendo, assim, 3 indicações ao filme.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Diretor: Peter Weir
2. Melhor Ator Coadjuvante: Ed Harris
3. Melhor Roteiro Original: Andrew Niccol

por Luís Adriano de Lima

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Laura - A Voz de Uma Estrela


LAURA – A VOZ DE UMA ESTRELA (Little Voice, 1998, 97 min)
Produção: Reino Unido
Direção: Mark Herman
Roteiro: Mark Herman
Elenco: Brenda Blethyn, Jane Horrocks, Ewan McGregor, Philip Jackson, Michael Caine, Jim Broadbent.

Laura (Jane Horrocks) perdeu o homem de sua vida - seu próprio pai – e desde então vive reclusa em seu quarto ouvindo a coleção de discos que ele deixou para ela como herança. Passou tanto tempo presa em seu mundo que ganhou o apelido de Little Voice da sua própria mãe, Mari (Brenda Blethyn). Mas, em um desses acontecimentos da vida, a moça acaba sendo descoberta por um empresário, Ray Say (Michael Caine). Ray só queria um relacionamento sexual com a Mari, mas quando percebe a mina de ouro em sua frente, decide apostar todas as suas fichas. Enquanto LV (diminutivo de Little Voice, usado basicamente pela mãe) se descobre apaixonada pelo estranho criador de pombas, Billy (Ewan McGregor), LV terá que aprender a se controlar e será obrigada a fazer aquilo o que faz de melhor: cantar.

A história de “Laura – A Voz de uma Estrela” (1998) pode parecer batida, mas a direção opta por reunir dois gêneros no filme desde o início: o drama e a comédia (essa, mais sutil, centrada na personalidade de cada personagem que consegue ser única dentro do filme). Impressionante a forma como o filme vai de um gênero para o outro sem perder o foco central. Porém, o filme concentra as suas forças em seu excelente elenco, que, aliás, foi lembrado no Oscar com uma indicação à Melhor Atriz Coadjuvante a Brenda Blethyn. Brenda é, talvez, o grande destaque deste filme já que a mesma possuía a difícil missão de humanizar a sua personagem da melhor forma possível já que, Mari, segue como uma caricatura devido a sua personalidade (mãe amargurada) medonha. Mas, ainda sim, o melhor destaque acaba sendo Jane Horrocks que faz miséria como a grande protagonista. Em partes, teve a ajuda do roteiro já que a personagem é digna de pena, mas ainda sim, é uma atuação memorável e que merecia ser lembrada na cerimônia do Oscar. Little Voice pode ter caído no esquecimento, mas segue como uma obra atemporal e merece ser descoberta.

INDICAÇÃO:
- Melhor Atriz Coadjuvante: Brenda Blethyn

por Alan Raspante