domingo, 17 de fevereiro de 2013

Bette Davis: "A Estranha Passageira" (1942)



A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, 117 min)
Direção: Irving Rapper
Roteiro: Casey Robinson, baseado no romance homônimo de Olivia Higgins Prouty.
Indicações: 1. Melhor Atriz | 2. Melhor Atriz Coadjuvante | 3. Melhor Trilha Sonora


Nominadas em 1943: Bette Davis: A Estranha Passageira || Greer Garson: Rosa da Esperança || Katharine Hepburn: A Mulher do Dia || Rosalind Rusell: Solteira às Avessas || Teresa Wright: Ídolo, Amante e Herói

A prova máxima da influência de Bette Davis no Cinema está em "A Estranha Passageira" (1942), bem no instante em que a atriz entra em cena. O diretor Irving Rapper usa sua câmera para fazer suspense quanto a presença da atriz em seu filme. Primeiro mostras as mãos, depois faz ela descer um lance de escadas mostrando só a cintura da triz, quando, passeando pelo novo mundo daquela personagem, foca, finalmente, no rosto estelar e aflito de Davis.
 
Charlotte Vale é uma das figuras mais marcantes que Bette Davis interpretou, seja pela eficiência do produto final, que resultou num filme impecável para a época, e também certificado na pele da atriz. "A Estranha Passageira" sofre de um mal comum, o tempo. As relações propostas pelo filme, tanto as relações familiares tão conservadoras e ineficientes do começo dos anos 40, como na atitude libertadora de Charlotte, se encaixam muito bem no tempo em que estão, porém, envelhecem. As formas de persuasão entre membros da mesma família já não são as mesmas, por isso, parece ser um filme muito distante da realidade contemporânea, o que também não deve colocar em cheque todo o trabalho dos envolvidos no filme, mas, infelizmente, o sentimento de busca de identidade daquele mundo fica cutucando o espectador durante toda a projeção.

Davis é a filha controlada pelas vontades e pulso firme da mãe, interpretada com força por Gladys Cooper. Mais do que tentar se libertar das rédeas da mãe, Charlotte procura por uma personalidade própria, o que já é um ponto muito positivo para o filme, descentralizando a figura da mãe, que aparece mais como uma coadjuvante de peso, pronta pra tornar a vida da filha um verdadeiro inferno na Terra. O conceito de epifania esclarece bem o que tenta ser a personagem de Bette Davis: o autoconhecimento, a aparição e a manifestação do que "sou" na verdade. Até lá, Charlotte ainda é vítima da tirania da mãe, que a transforma numa mulher à beira de um ataque de nervos. A insegurança reina no semblante da filha.

Fica difícil saber a idade de Charlotte, presa numa narrativa não-linear que foge dos preceitos da época. Hora com 18 anos, alegre, feliz, pronta para amar, hora com 27, amargurada, afundando na tristeza. A via-crúcis de Charlotte se completa com o aparecimento de uma paixão na viagem de navio rumo ao Rio De Janeiro. As proibições desse amor correspondido levam Charlotte a repensar sua vida, que numa volta triunfal, assume a postura da mulher dominante, dona do próprio nariz, mas que, ainda, tem o abismo diante de seus pés: a mãe.

Mais uma vez, sempre com muito merecimento, Bette Davis teve sua atuação indicada ao Oscar, quando, dessa vez, acabou perdendo para Greer Garson, que na época foi premiada por um trabalho em parceria com William Wyler - o fantástico Mr. Wyler. Na dor, na esperança, na prisão ou na dúvida, onde estiver, repito, Bette Davis estará no único lugar em que deveria estar.

por Gustavo Pavan

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bette Davis: "Pérfida" (1941)



PÉRFIDA (The Little Foxes, 1941, 116 min)
Direção: William Wyler
Roteiro: Lillian Hellman, baseado na sua própria peça de teatro.
Indicações: 1. Melhor Filme | 2. Melhor Diretor | 3. Melhor Atriz | 4. Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Collinge) | 5. Melhor Atriz Coadjuvante (Teresa Wright) | 6. Melhor Roteiro Adaptado | 7. Melhor Direção de Arte PB | 8. Melhor Edição | 9. Melhor Trilha Sonora


Nominadas em 1942: Barbara Stanwyck: Bola de Fogo || Bette Davis: Pérfida || Greer Garson: Flores do Pó || Joan Fontaine: Suspeita || Olivia de Havilland: A Porta de Ouro.

Até 1941, Bette Davis já havia sido indicada por interpretar uma garçonete vulgar (1935, nominação não oficial), uma ex-atriz alcoólatra (1936), uma jovem sulista mimada (1939), uma jovem arrojada com uma doença terminal (1940) e uma esposa adúltera que impulsivamente matou seu amante (1941). Tanto por “Jezebel” (1938) quanto por “A Carta” (1940), Davis foram indicada por um filme dirigido pelo homem com quem tinha um caso extraconjugal, William Wyler. “Pérfida” (1941) não apenas marca o terceiro e último encontro na tela dos dois como a terceira vez que o diretor a dirige num desempenho nominado e, mais ainda, a primeira vez em que a atriz é nominada por uma personagem em que nota facilmente maturidade.

Depois de interpretar a jovem Julie em 1938, filme de Wyler que lhe rendeu seu segundo prêmio, Bette Davis vive outra vez uma personagem sulista. Regina é a matriarca da família Giddens e definitivamente é uma mulher em quem se notam estratégias milimétricas – cada frase sua está calculada para surtir o efeito que deseja e, assim, conseguir tudo aquilo que quer. Regina é certamente uma das pequenas raposas do título original: ela está ali para se aproximar silente das videiras e tomá-las, quando for hora, para si. Seus dois irmãos – Oscar e Ben – planejam investir muito dinheiro em ações a fim de ver o dinheiro retornar em quantidade consideravelmente maior em relação àquela que investiram; precisam, porém, de um terceiro sócio, propondo, pois, a Regina que convença seu marido a entrar com a terceira parte do capital. Ela não hesita, desde que o negócio lhe seja de algum modo mais proveitoso: em vez de dividir em partes iguais, a quantia que lhe caberá, aceitando o marido entrar na sociedade, corresponderá a 40%.

O filme é certamente acerca de uma mulher ambiciosa e do quanto ela é capaz de fazer para chegar a seus objetivos. Para interpretar uma personagem assim, dificilmente outra atriz seria mais adequada do que Bette Davis, atriz que sem dificuldades dá à personagem o tom sóbrio e altivo de que ela precisa. Basta notar que, apenas levantando a cabeça, fazendo-se olhar de cima para baixo, Bette Davis faz com que nos esqueçamos de sua altura – apenas 1,60m – e acabemos por ver uma mulher extremamente imponente cuja postura não pode ser senão chamada de inabalável. Palavra mais apropriada não há – basta ver a cena na qual os personagens de Bette Davis e Herbert Marshall, com quem já havia atuado em “A Carta”, têm uma discussão e ela, sempre plácida, mas ainda assim feroz, lhe diz a verdade sobre o casamento dos dois e sobre os motivos que a levaram a querer-lhe como marido.

Apesar das intensas discussões nos sets de filmagens, incluindo um momento no qual Bette Davis chegou a noticiar seu desligamento do filme (voltou porque soube que, com sua saída, Miriam Hopkins, sua inimiga, poderia ser contratada), a obra se concluiu como programado, cativou a crítica, atraiu o público e recebeu uma impressionante quantia de 9 indicações ao Oscar, recebendo após a cerimônia a distinção de filme com o maior número de nominações até então a não receber nenhum prêmio. Diferentemente de outros títulos, porém, como “Vitória Amarga” (1939), essa obra não é só dela: o elenco secundário é bastante eficiente, elevando o filme ao patamar no qual está. “Pérfida”, por fim, se marcou como a quarta parte da saga de Bette Davis e as suas indicações consecutivas – indicação essa, aliás, merecida.

por Luís Adriano de Lima

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Bette Davis: "A Carta" (1940)



A CARTA (The Letter, 1940, 95 min)
Direção: William Wyler
Roteiro: Howard Koch, baseado no romance de W. Somerset Maugham
Indicações: 1. Melhor Filme | 2. Melhor Diretor | 3. Melhor Atriz | 4. Melhor Ator Coadjuvante | 5. Melhor Fotografia PB | 6. Melhor Edição | 7. Melhor Trilha Sonora


Nominadas em 1941: Bette Davis: A Carta || Ginger Rogers: Kitty Foyle || Joan Fontaine: Rebecca, a Mulher Inesquecível || Katharine Hepburn: Núpcias de Escândalo || Martha Scott: Nossa Cidade

Bette Davis deve agradecer na eternidade a chance que teve de trabalhar os mais diversos tipos de personalidade que algumas mulheres podem desvendar ao longo de sua vida. De mentirosa a mocinha, de louca a assassina, todos quase sempre sob a batuta de um diretor bastante sensível, pronto pra tirar o sangue da atriz, sem que ela abandone a mais bela das coisas da arte de atuar: a naturalidade. Despe-se de sua vaidade - e, por isso, acho Kate Winslet tão parecida com Davis - com uma força muito natural, mistificando a si própria como uma atriz inabalável e inatingível. Simplesmente, alguns nascem destinados a fazer exatamente aquilo, prova disso é o talento e infinitas oportunidades que Davis encontrou em sua caminhada. Onde quer que ela estivesse, aquele era o único lugar que ela deveria estar.

Em "A Carta" (1940), segunda parceria da atriz com o diretor William Wyler, novamente temos uma atriz entregue ao papel, consumida pelos mistérios e focada no destino de sua personagem. Fazer o espectador acreditar piamente naquilo que está vendo não é tarefa fácil, mas, como já citado, Bette Davis exala ar fresco, restando como única opção viver o drama que ela vive. Pouquíssimos atores tem esse poder de convencimento, de controle absoluto de cena e dos olhares.

Leslie Crosbie, personagem de Davis em "A Carta", é um prato cheio para a destemida atriz, que habitualmente deita e rola com a história dessa mulher com aspectos duais. Leslie é americana e mora na Ásia com o marido (Herbert Marshall) e, num dia qualquer, após momentos de desespero acaba matando um homem que tentou violentá-la. Com o apoio de marido e do advogado, Leslie alega legítima defesa. O que a mulher não contava era com o aparecimento da viúva em posse de uma carta, revelando uma ligação muito maior entre vítima e suspeito.
 
O desespero anda de mãos dadas com Leslie, que além de temer que seu segredo seja desvendado, também assume uma postura enigmática quanto ao limiar de todos os problemas. Na verdade, se existe, sobretudo, falhas na condução do filme, provavelmente essa se perde na poderosa presença de Davis, que não deixa mais espaço para outra conclusão. Leslie esbanja comprometimento mesmo nas cenas mais descartáveis, em que a tensão de sua postura simplesmente não cai, pelo contrário, é como alimentar dragões.

A personagem no filme rendeu a quarta indicação oficial de Bette Davis ao Oscar, que, naquele ano, nem ela e nem Katharine Hepburn tiveram chances contra Ginger Rogers, premiada pelo papel em “Kitty Foyle” (1940). Embora não seja dos melhores filmes da carreira da atriz, Bette Davis reúne todos os pré-requisitos para estar em qualquer lista de qualquer prêmio.

por Gustavo Pavan

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Bette Davis: "Vitória Amarga" (1939)



VITÓRIA AMARGA (Dark Victory, 1939, 104 min)
Direção: Edmund Goulding
Roteiro: Casey Robinson, baseado na peça de George Emerson Brewer Jr.
Indicações: 1. Melhor Filme | 2. Melhor Atriz | 3. Melhor Som


Nominadas em 1940: Bette Davis: “Vitória Amarga” || Greer Garson: “Adeus, Mr. Chips” || Greta Garbo: “Ninotchka” || Irene Dune: “Duas Vidas” || Vivien Leigh: “... E O Vento Levou”.

Judith Traherne é uma jovem socialite sem nenhuma preocupação na vida. Participar de festas e ocasionalmente cavalgar são suas maiores ocupações. Porém, algo está errado com ela: dores de cabeça, tonturas e desmaios se tornam cada vez mais comuns. Muito a contragosto, ela se consulta com o gentil dr. Steele, e o diagnóstico é terrível: um grave problema neurológico, para o qual uma operação é o único tratamento. Após a operação, Judy apaixona-se por seu médico e passa por um período feliz. Porém, a ameaça de uma reincidência da doença pode destruir sua felicidade e sua vida.

O papel de Judy era um dos favoritos da estrela Bette Davis, e assistindo ao filme é fácil descobrir por que. Bem jovem quando fez o filme, a atriz exala charme e carisma no inicio da história, quando dá vida à personagem teimosa e forte. Mais tarde, quando as circunstâncias alteram sua vida, Davis retrata com maestria as mudanças pelas quais Judy passa – de mocinha fútil a mulher adulta e sábia, capaz de se importar com alguém além de si mesma.

A história de uma pessoa jovem forçada a encarar uma doença grave é prato cheio para o melodrama, e nesse quesito “Vitória Amarga” (1939) não decepciona. É um filme muito antiquado, tão antiquado quanto o bigodinho do galã George Brent, que interpreta o dr. Steele. O romance é feito sob medida para emocionar a plateia feminina e as viradas na história são previsíveis para qualquer espectador de novelas. Porém, o filme tem qualidades: entre os coadjuvantes vemos, em inicio da carreira, Humphrey Bogart e Ronald Reagan; e as cenas finais conseguem ser realmente emocionantes. Mérito de Bette Davis, capaz de comover mesmo em histórias com tons folhetinescos como essa. Ela transforma Judy numa personagem carismática e forte, e graças ao papel a atriz conquistou merecidamente sua quarta indicação ao Oscar.

por Ivanildo Pereira