sábado, 20 de abril de 2013

O Mestre



O MESTRE (The Master, 2012, 144 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Amy Ferguson, Frank Bettag, Rami Malek, Laura Dern.

Esse texto foi publicado originalmente na página O Espectador Voraz em 26 de janeiro de 2013.

Antes de ser um filme sobre a criação de uma seita, como foi divulgado durante sua produção, “O Mestre” (2012), trabalho mais recente do cineasta americano Paul Thomas Anderson, é uma obra sobre ser humano, com erros, acertos, voltas por cima, resignações e busca por um caminho próprio. Para divagar sobre essas temáticas, o diretor contextualiza sua história no começo dos anos 50, logo após o final da segunda guerra. Boa parte da população norte-americana (e mundial também) encontrava-se em um estado de profunda melancolia, quando na verdade deveria ser uma época de felicidade. No entanto, essa alegria era pouco palpável, muito pelas milhares de vidas perdidas em campos de batalha. O país vivia uma letargia, com seus veteranos de guerra voltando para casa traumatizados pelo conflito, desconectados do fator “sociedade” e simplesmente ausentes de perspectivas.

Para simbolizar esse delicado momento, visto como de transição também, a trama de O Mestre nos traz o beberrão e problemático Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um ex-marinheiro, fanfarrão, embora sensível, fiel ao trabalho durante seu tempo de serviço, mas um dos inúmeros alienados dentro de seu tempo. Depois de uma temporada no hospital dos veteranos para tratar o estresse pós-guerra, regressa à sociedade, mas tem dificuldades para se integrar, vagando de emprego em emprego e envolvido sempre em problemas, muito por conta de suas trapalhadas. Em um desses casos, quando trabalhava em uma plantação, é acusado pelos lavradores de envenenar um deles com a singular bebida que prepara usando até redutor de tinta entre alguns dos peculiares ingredientes. Durante a fuga, bêbado, Freddie refugia-se em um iate atracado no balneário da cidade. Nesse imponente iate, no dia seguinte e ainda de ressaca, conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) ou simplesmente o Mestre, como prefere ser chamado.

Médico, físico, filósofo, escritor, Dodd é um líder nato, melhor, Mestre inquestionável de um tipo de seita chamada A Causa, que tem como fundamento a viagem no tempo para estudar os antepassados e assim curar doenças psicológicas e físicas. Aqui, é quando a trama de O Mestre se aproxima da tal premissa que o coloca como a origem do sistema de crenças conhecido por Cientologia, criado em 1952 pelo autor de ficção cientifica L. Ron Hubbard. O personagem de Philip Seymour Hoffman, revestido de nuances semelhantes, parece dialogar diretamente com o verídico precursor da já citada Cientologia. Contudo, ainda que seja um mote trabalhado com esmero e eficiência, creio ser apenas um pano de fundo consistente para Paul Thomas Anderson fazer sua digressão sobre o poder da vida em sociedade, a força que a integração pela fé pode ter sobre um ser solitário e sem horizonte e logo as invariáveis concessões a serem feitas para se “usufruir” de tais benefícios. O que também não deixa de ser preceitos canalizadores de adeptos em muita das religiões conhecidas.

Não obstante a ser um mero e simplório retrato de doutrina, apesar de ser, mesmo que involuntariamente, O Mestre foca com rigor nos contornos da relação conflituosa, mas de admiração mútua, entre Freddie e Dodd. O primeiro, de espírito selvagem, inconseqüente, “um animal”, como o próprio Mestre chama, tenta se enquadrar nos ensinamentos do segundo. Enquanto Dodd, com sua retórica afiada e precisão clinica nas colocações, vê em Freddie um desafio, tipo de adepto perfeito para propagar suas idéias. Embora exista o fator catequizador na trama, onde Dodd usa de artifícios pré-definidos para mudar os conceitos que Freddie tem da vida, acredito que em certo ponto da jornada, a relação Mestre/Aprendiz transcende os ensinamentos e se torna uma amizade pungente. Nesse momento é quando o filme torna-se maior que as problemáticas discutidas, ganhando pertinentes nuances reflexivas sobre a conduta do ser humano em relação à vontade própria, livre arbítrio. Afinal, é possível mudar alguém contra sua própria vontade? Uma pessoa deve aceitar condições que reprova apenas por admirar seu precursor? O quanto é necessário que alguém lhe diga o caminho a seguir?

Para tal embate ter aspectos críveis e viscerais, trazendo o espectador para dentro da trama, é importante ressaltar com ênfase o trabalho de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman. A dupla de talentosos atores enche a tela de complexidade, reflexão. Com a câmera de Paul Thomas Anderson muitas vezes próximo dos rostos, acompanhamos in loco cada movimento de expressão colocada com precisão dentro do sentido dos diálogos afiados. Não bastasse Joaquin Phoenix imerso no caráter de Freddie, o ator ainda transforma-se fisicamente, trazendo um dos personagens mais bem lapidados do recente cinema norte-americano. À medida que Philip Seymour Hoffman, não menos genial, constrói seu Mestre com gentileza, imposição, carisma, mas também pronto para explodir ao menor sinal de ser contrariado. Nessa perspectiva peculiar da personalidade de Dodd é que surge uma das cenas mais intempestivas de O Mestre, quando um ouvinte de uma sessão de regressão interpela o homem sobre as conseqüências da divulgação de um trabalho de fundamentos tão questionáveis.

Existe uma tensão crescente, sempre pairando no ar em O Mestre, muito por conta do já citado relacionamento conflituoso entre os protagonistas. Embora as interpretações sejam a força motriz do filme nesse aspecto de gerar ansiedade e impaciência, vale apontar uma consideração técnica que faz suporte primordial para tais características surgirem com eficiência redobrada. Falamos aqui da imponente trilha sonora a cargo de Jonny Greenwood, guitarrista da banda britânica Radiohead. Inúmeras vezes as composições soam desafiadoras, principalmente Aplicattion 45 Version 1 (que vem a ser um dos métodos de trabalho da A Causa), que entoa sugerindo batidas de martelos continuas, incessantes, transmitindo assim uma sensação incômoda, faz-se fundamental para tirar o espectador da zona de conforto.

Contando ainda com um elenco coadjuvante talentoso, com destaque para as atrizes Amy Adams e Laura Dern, que mesmo eclipsadas em boa parte da projeção pelas atuações categóricas dos protagonistas, ainda assim conseguem ter seus momentos de destaque na trama. Uma particular cena de Laura Dern funciona como fator decisivo e revelador sobre o caráter misterioso de Dodd, ao passo que uma outra seqüência já perto do desfecho, envolvendo Amy Adams, é definitiva para o exame sobre a consciência peculiar de Freddie. Ao contrário de Sangue Negro (2007), sua contundente obra anterior, onde o diretor reserva o epílogo para um momento de explosão seguindo o ritmo tenso de boa parte da narrativa, os momentos derradeiros de O Mestre contêm uma poesia inocente e singela, além de certo teor cômico, ausente de boa parte do filme. Não restam dúvidas que com O Mestre, o cineasta Paul Thomas Anderson brinda o público com mais um trabalho maduro, relevante e de valor humano inquestionável. Consolidando assim cada vez mais seu nome no panteão do cinema contemporâneo, quiçá de todos os tempos.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Ator: Joaquin Phoenix
2. Melhor Ator Coadjuvante: Philip Seymour Hoffman
3. Melhor Atriz Coadjuvante: Amy Adams

por Celo Silva

terça-feira, 16 de abril de 2013

Amor



Amor (Amour, 2012, 125 min)
Produção: Áustria | França
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert

Texto publicado originalmente no site Cinéfila por Natureza em 20 de fevereiro de 2013.

Na sua concepção literal, amor é a grande afeição que uma pessoa sente por outra. Porém, se fôssemos estudar o que significa esse conceito, chegaríamos à conclusão de que o amor não tem uma definição clara e certa. É um sentimento completamente abstrato. O amor não se mede e, muito menos, tem explicação. Ele está ali para ser sentido e vivido. E é justamente esse sentimento que permeia os 125 minutos de duração de “Amor” (2012), co-produção austríaca e francesa dirigida e escrita por Michael Haneke.

A história enfoca o relacionamento entre Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva). Ambos estão na faixa dos 80 anos. Ambos estão lidando com um outro tipo de sentimento: o do ocaso. Não do amor. Mas, sim, da vida em si. Isso está mais latente ainda quando, após uma complicação de uma cirurgia para desobstrução de uma artéria, algo completamente simples, Anne entra na estatística contrária, a dos 5% que têm uma complicação. Com o lado direito do corpo paralisado, ela fica totalmente dependente dos cuidados do marido. 

Um elemento fundamental a se prestar atenção no decorer de “Amor” é acompanhar o trabalho de direção feito por Michael Haneke. A sua câmera se dedica ao relato completo do cotidiano deste casal. São cenas longas, quase sempre com a câmera num único movimento, sem muitas variações de ângulos, com o objetivo de nos mostrar que o amor ali, ou a “obrigação” colateral do amor (cuidar de seu parceiro na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias de sua vida) se tornou um peso. Para os dois. Ambos se tornam prisioneiros do apartamento onde vivem. Ambos pouco conversam sobre a situação precária de saúde de Anne. O dia a dia deles se resume a esperar o dia em que a situação vai se tornar tão insustentável que o fim será natural. 

É isso que faz de “Amor” um filme dilacerador, pois todos sonhamos em encontrar um amor com quem poderemos envelhecer juntos, mas a gente não pensa muito no fato de que envelhecer é difícil, para todo mundo. E ver quem a gente ama, ainda mais se for uma pessoa ativa e inteligente como Anne, sofrendo e se perdendo pouco a pouco dia após dia é muito complicado. Em consequência disso, “Amor” é um filme que dispensa julgamentos, até porque o sentimento que dá nome ao filme e os atos que ele nos concita a fazer também nunca suscitam o julgamento, visto que nunca que serão compreendidos.

Indicado a cinco Oscars 2013, “Amor” se torna um filme emocionante e poético não só por causa da força das imagens filmadas por Michael Haneke (a cena em que o pombo fica vagando pelo apartamento é uma das mais bonitas do ano, até agora), como também por causa de um final aberto, entregue à interpretação do público; mas, principalmente, por causa das atuações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (a melhor dentre as indicadas ao Oscar 2013 de Melhor Atriz), duas lendas do cinema francês que, neste longa, entregam performances viscerais que nos relembram cena após cena das alegrias e das dores de se entregar ao amor, a um relacionamento duradouro, com alguém que a gente não imagina viver sem.

INDICAÇÕES (1 vitória):
1. Melhor Filme: Margaret Ménegoz, Michael Katz, Stefan Arndt e Veit Heiduschka
2. Melhor Filme em Língua Estrangeira: Áustria – venceu
3. Melhor Diretor: Michael Haneke
4. Melhor Atriz: Emmanuelle Riva
5. Melhor Roteiro Original: Michael Haneke

por Kamila Azevedo

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Melhor Roteiro Adaptado | Melhor Roteiro Original



INDICADOS:
- “Argo” (2012): Chris Terrio
- “As Aventuras de Pi” (2012): David Magee
- “Indomável Sonhadora” (2012): Benh Zeitlin e Lucy Alibar
- “O Lado Bom da Vida” (2012): David O. Russell
- “Lincoln” (2012): Tony Kushner

Na categoria de Roteiro Adaptado esse ano, os concorrentes eram os filmes “Argo”, “Lincoln”, “O Lado Bom da Vida”, “As Aventuras de Pi” e “Indomável Sonhadora”. Os três primeiros tinham chances maiores de serem premiados.

“Lincoln” foi adaptado de livros sobre o presidente americano pelo dramaturgo Tony Kushner, criador do premiado sucesso da Broadway “Angels in America” (mais tarde filmado pela HBO). Ele já tinha colaborado com Spielberg antes, no filme “Munique” (2005), o melhor trabalho do diretor na década passada – pelo qual Kushner também foi indicado ao Oscar. É um roteiro que expõe bem as maquinações políticas da época e é centrado no diálogo. O diálogo também é primordial no roteiro de “O Lado Bom da Vida”, baseado no livro de Matthew Quick, cujo roteiro foi escrito pelo próprio diretor do filme, David O. Russell. Russell é um pouco familiarizado com transtornos mentais, talvez por isso os diálogos e situações do filme tenham ficado tão criativos e engraçados, prato cheio para o grande elenco do filme.

O diretor Behn Zeitlin, junto com Lucy Alibar, adaptou o livro “Indomável Sonhadora” para as telas. O filme independente oscila entre o mundo real e a fantasia da garotinha Hushpuppy, mas de todos os indicados era o que tinha menos chances de ganhar. O roteiro de “As Aventuras de Pi”, baseado no livro de Yann Martel, sem dúvida representou um desafio técnico para o diretor Ang Lee – é o tipo de história que, quando lida, suscita a pergunta: “como vamos filmar isso?”. É uma alegoria perfeitamente transposta para a tela, e um roteiro bastante visual.

O roteiro vencedor, de Chris Terrio para o filme “Argo”, se concentra na inacreditável história real e não perde a ironia da influência do cinema sobre ela. Talvez por isso, e por não diminuir a tensão da história, o roteiro foi considerado o melhor dos cinco e digno do prêmio. Mesmo assim, não deixa de ter sua parcela de probleminhas: algumas situações um pouco artificiais (que não aconteceram realmente) são colocadas no trecho final do filme apenas para criar um pouco mais de drama.

INDICADOS:
- “Amor” (2012): Michael Haneke
- “Django Livre” (2012): Quentin Tarantino
- “A Hora Mais Escura” (2012): Mark Boal
- “Moonrise Kingdom” (2012): Roman Coppola e Wes Anderson
- “O Voo” (2012): John Gatins

Os indicados a Roteiro Original foram os filmes “A Hora Mais Escura”, “Amor”, “Moonrise Kingdom”, “O Voo” e “Django Livre”. “A Hora Mais Escura”, com toda a polêmica criada em torno do seu lançamento, não tinha realmente chances de ganhar, apesar de suas qualidades e da sua inegável coragem. O roteirista Mark Boal já havia sido premiado antes por “Guerra ao Terror” em 2010. Era a mesma situação de “Moonrise Kingdom”: não tinha chances, apesar de também ser um bom roteiro. Era o independente da noite, para quem apenas a indicação já representaria um prêmio.

“O Voo”, do novato John Gatnis, chamou a atenção o suficiente para conseguir a indicação, e se trata realmente de um grande estudo de personagem – até o clichê final e artificial da redenção de um mau-caráter, algo que já vimos em centenas de outros filmes. “Amor”, escrito pelo próprio diretor do filme Michael Haneke, é poderoso e sem concessões, como de praxe na carreira do cineasta. Seria sério candidato a vencedor na categoria, não fosse Quentin Tarantino e seu “Django Livre”.

Tarantino, que já havia ganhado pelo roteiro de “Pulp Fiction” (1994) e concorrido pelo de “Bastardos Inglórios” (2009), novamente criou uma peça única, algo montado com partes de outros filmes, mas que, no fim das contas, só poderia ter saído da sua cabeça. Além disso, criou diálogos, situações e personagens memoráveis, defendidos com vigor pelo seu fantástico elenco. Realmente é um cineasta com um incrível talento narrativo, e por isso pode-se dizer que este seu segundo Oscar foi absolutamente merecido.

por Ivanildo Pereira

sábado, 13 de abril de 2013

Indomável Sonhadora



INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of Southern Wild, 2012, 93 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Benh Zeitlin
Roteiro: Benh Zeitlin e Lucy Alibar, baseado na peça Juicy and Delicious (2000), de Alibar.
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana.

Se existe uma coisa que os filmes indicados ao Oscar 2013 realmente não conseguiram foi unanimidade, e aqui eu quero dizer, claro, que nem algo próximo a isso foi visto. Pudemos ver, por exemplo, “Os Miseráveis” (2012) agradar muita gente e, ao mesmo tempo, ser regurgitado por outra grande parcela dos espectadores. Prova disso é que o mesmo aconteceu com “Lincoln” (2012), “As Aventuras de Pi” (2012), “Argo” (2012) (talvez o mais próximo do caloroso abraço do público), “O Lado Bom da Vida” (2012), “A Hora Mais Escura” (2012) e o próprio “Indomável Sonhadora” (2012) - acho que “Amor” (2012) é o único que não entra nessas estatísticas um tanto improvisadas.

“Indomável Sonhadora” mergulha num universo de magia e instintos humanos, tornando-se severamente contemplativo, daí, talvez, venha a sua condição de não agradar a todos: o filme em nenhum momento é auto-explicativo, pelo contrário, exige do público comprometimento e um coração sensível pronto para navegar na precária zona de mangue de Nova Orleans, onde se passa a história da roteirista Lucy Alibar e do diretor Benh Zeitlin.

A fita se passa num lugar denominado "A Banheira", uma ilha no meio de uma barragem, que após a passagem do furacão Katrina fica totalmente inundada e praticamente inabitável. Nesse lugar, cresce de forma instintiva a pequena Hushpuppy (Quvenzhané Wallis). Embora a menina viva com o pai (Dwight Henry), este não se mostra um perfeito educador, delegando a filha mais força e garra do que uma criança na idade dela deveria ter.  O ponto alto e central do filme fica mesmo na relação de interdependência entre a menina e o pai, que arrasado numa doença silenciosa, desconstrói a imagem do pai protetor visando o crescimento do instinto de sobrevivência da filha.
 
Zeitlin responde de forma muito bela em seu primeiro longa. A fotografia iluminada preenche o mundo fantástico de Hushpuppy, a trilha sonora é carinhosamente trabalhada na emoção das personagens, sem contar a linda câmera que se movimenta como se lutasse contra um naufrágio, buscando sempre na presença de sua protagonista o suspiro seguinte.
 
A grande beleza de “Indomável Sonhadora” revela-se na construção conquistadora do mundo de Hushpuppy. A mente que briga animais fantásticos, que fogem de algum dos extremos do planeta para encontrar a menina ali naquele cenário desolador, também é a mente guerreira de uma comunidade toda, que às margens da sociedade vai alongando o tempo de vida naquela região perigosa. Hushpuppy é o símbolo de um ideal comum àquelas famílias: ser do lugar que te pertence. A concretização da figura da menina com símbolo se dá principalmente pela força eloquente do pai, que sem a figura da mãe desaparecida, vai injetando em Hushpuppy os mais diferentes instintos animais, provocando um agigantamento impressionante da menina, que tem também na narração o seu principal veículo de convencimento do público. Basicamente, quem vê na garotinha a chance de controlar esses instintos de sobrevivência, dá com os burros n'água. Hushpuppy é blindada, uma fusão de inocência e força bruta.

Quvenzhané Wallis, indicada ao Oscar de Melhor Atriz, é uma real força da natureza. A pequena garota de sotaque sulista destacado, gera no espectador momentos de puro desarme, onde as limitações de cada um passam a ser ultrapassadas e a revelação de uma nova pessoa pode acontecer. Wallis preenche a tela com a natureza de sua imagem e interpretação, reserva para sua personagem cada espaço vazio, cada sensação desconfortável, cada nova esperança de dias melhores. Um brinde e muita saúde a Quvenzhané Wallis.

INDICAÇÕES:
1. Melhor Filme: Dan Janvey, Josh Penn e Michael Gottwald
2. Melhor Diretor: Benh Zeitlin
3. Melhor Atriz: Quvenzhané Wallis
4. Melhor Roteiro Adaptado: Benh Zeitlin e Lucy Alibar

por Gustavo Pavan