sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um Estranho no Ninho



UM ESTRANHO NO NINHO (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, 1975, 133 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Milos Forman
Roteiro: Lawrence Hauben e Bo Goldman
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Danny DeVito, Scatman  Crothers, Sidney Lassick, Michael Berryman.

Dois fatores transformaram “Um Estranho no Ninho” (1975), dirigido pelo checo Milos Forman, num dos maiores títulos do cinema: primeiro, trata-se de uma obra com uma mensagem bastante eficiente, interessantemente apresentada de modo alegórico num país – mais do que isso: sobre um país – cujo sistema é bastante duvidoso, quase feroz em relação àqueles que saem da linha; segundo, por ter sido imortalizado na história do Oscar como o segundo de apenas três filmes a conquistar os maiores prêmios da noite – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e, no caso desse filme, por se tratar de uma adaptação, Melhor Roteiro Adaptado. Antes dele, apenas “Aconteceu Naquela Noite” (1934) havia conseguido o mesmo; depois dele, apenas “O Silêncio dos Inocentes” (1991) repetiu a façanha.

Particularmente, prefiro me focar na abordagem sociológica, que é decerto a mais interessante, justamente porque acho que as tantas vitórias do filme no Oscar significaram mais campanha publicitária pesadíssima do que reconhecimento real daquilo que o filme apresenta. Até porque, convenhamos, indicar Louise Fletcher na categoria de atuação feminina principal é um absurdo. Mais absurdo ainda é premiá-la quando ela concorria com outras atrizes que, sem esforço, apresentam trabalhos melhores. Mas, retomando, penso que o trabalho do filme quanto à sua mensagem é aquilo que mais chama a atenção. Randle McMurphy é um cara desajustado: não apenas teve problemas de comportamento como persiste na sua noção de que tem o direito de fazer tudo o que quer. Depois de se relacionar com uma garota contra a vontade dela, ele é preso, mas, para evitar o trabalho na penitenciária, ele alega instabilidade mental a fim de ser enviado a uma instituição para tratamentos mentais, local comandando com mãos de ferro pela enfermeira Ratched, uma mulher praticamente inabalável, de fala calma e inalterável. A antipatia é imediata e não resta nada a McMurphy fazer senão tentar tornar aquele lugar um pouco mais tolerável, mesmo que isso implique causar certos transtornos para Ratched.

De certo modo, a direção de Milos Forman parece recostar na personagem de Jack Nicholson. Qual McMurphy – notadamente um desajustado –, Forman também teve seus maus dias quando veio aos Estados Unidos, país que, antes de reconhecê-lo pelo seu trabalho na indústria do cinema, fez com que ele ficasse restrito a poucos trabalhos e, num determinado momento, até mesmo proibido de trabalhar, já que a Associação dos Diretores Cinematográficos havia declarado não haver espaço para os diretores americanos, não havendo, pois, espaço para imigrantes também. A influência dos amigos de Forman que o fizeram voltar à indústria, mesmo que isso tenha implicado em alguns fracassos na primeira metade da década de 1970. Foi com o comando de “Um Estranho no Ninho” – pode-se dizer, ele mesmo um estranho no ninho – que Forman conquistou o estrelato e o respeito. Tendo compreendido a cultura americana, ele se dedicou a criticá-la nas suas obras, e esse filme é justamente isso: a exposição de um homem cuja vida não se adéqua àquilo que o sistema determina e, por conseqüência, precisa ser exterminado.

Se McMurphy é a representação do desajuste, a enfermeira Ratched é a alegoria perfeita do sistema. Assim como é difícil defini-lo, é também difícil definir a figura da enfermeira, sempre muito organizada, muito doce e gentil, às vezes áspera, mas sempre tentando nos convencer – ainda que não explicitamente – de que sua mudança de comportamento é reação a uma ação e não pura premeditação. Ratched é, sem sombras de dúvida, o que melhor representa uma cultura alicerçada em aculturamento, sendo ela própria uma defensora da política de “fazer andar na linha”: em toda conversa, sua palavra é a última; em caso de euforia decorrida de descontentamento, há sempre aqueles que podem vir auxiliá-la a por ordem no ambiente; em situações mais graves, de transtorno, do que ela julga impertinente, a lobotomia. Assim, não se lhe pode questionar suas decisões tampouco se pode, sem aprovação dela – do sistema – ser o que se quer ser ou que se naturalmente é – pouco a pouco, na sua postura inabalável, ela transforma todos conforme suas vontades, nem que para isso, alegando ser essa a solução para o bem-estar de todos, precise “inutilizar” a pessoa de suas funções de ser pessoa.

Jack Nicholson já tinha uma carreira consideravelmente consolidada em 1976, quando venceu o Oscar pela sua interpretação nesse filme. Já havia sido indicado quatro vezes antes e em todas elas, numa análise mais específica das obras e dos personagens, ele havia representado o homem em confronto com aquilo que lhe é dito para fazer. George Hanson, de “Sem Destino” (1969), é um advogado cansado da restrição da sua rotina que se une a dois viajantes numa jornada com muitas drogas e bebidas. Robert Dupea, de “Cada um Vive como Quer” (1970), é um ex-pianista que abdicou de seu passado rico para viver em busca daquilo que realmente o faz feliz, mesmo sem saber especificamente o que é seu objeto de desejo. Buddusky, the The Last Detail (1973), é um oficial a quem são dadas ordens de prender um rapaz que roubou quarenta dólares – vendo o rapaz, nem menino nem adulto, decide apresentá-lo às coisas que ele precisa conhecer antes de finalmente tornar-se adulto. Por fim, J. J. Gittes, de “Chinatown” (1974), um detetive particular que descobre um caso de corrupção e assassinato e se envolve totalmente apesar dos riscos iminentes contra sua própria vida. Em 1975, Nicholson personifica McMurphy, e o arquétipo do homem desajustado e persistente já lhe era bem conhecido, e o ator já sabia bem como dar formas ao seu personagem. Ainda que seu histórico até então seja bastante enfático na construção dessas personalidades, vale o comentário de que o ator nunca se repetiu, sendo “Um Estranho no Ninho” outra excelente realização sua.

As dicotomias no filme são evidentes e o espectador é o tempo todo colocado a par das oposições representadas por McMurphy e Ratched: ele sempre irônico, ela sempre sem humor; ele sempre despenteado, ela sempre engomada; ele de roupas escuras, ela de roupas claras – e, curiosamente, quando ele está de roupas claras, ela as veste em tons escuros; enfim, ele vs. ela, a sanidade vs. a loucura, a prisão (suposto local desumano) vs. a casa de tratamento (suposto local de cura). Ironia absoluta: fugindo da prisão, Randle acaba preso; buscando o conforto de uma casa de saúde, acaba ele mesmo mentalmente abalado. E toda a proposta de debate do filme caminha no sentido de que o espectador possa o tempo todo se perguntar até que ponto é válido seguir um caminho que não é determinado por você mesmo, até que ponto é adequado obedecer em vez de questionar as regras e mudá-las, e até que ponto é saudável perder sua individualidade devido a situações que te impedem de agir de um determinado modo. Randle, nesses questionamentos, nas suas atitudes conflituosas, nos prova que um homem sozinho não muda qualquer sistema: ou se perde a vida tentando se adaptar a ele ou a perde lutando contra ele. Talvez, mais do que a figura briguenta de Randle McMurphy, o que fica na nossa mente é a imagem de Racthed, polida demais na sua fala sóbria, um quase sorriso no rosto, alegando que a música-ambiente é para o conforto de todos os pacientes mesmo sem ter, em momento algum, perguntado a alguém se lhes era do agrado a melodia insossa que podemos ouvir ao longo da exibição do filme.

INDICAÇÕES (5 vitórias):
1. Melhor Filme: Michael Douglas e Saul Zaentz – venceu
2. Melhor Diretor: Milos Forman – venceu
3. Melhor Ator: Jack Nicholson – venceu
4. Melhor Atriz: Louise Fletcher – venceu
5. Melhor Ator Coadjuvante: Brad Dourif
6. Melhor Roteiro Adaptado: Lawrence Hauben e Bo Goldman – venceu
7. Melhor Fotografia: Haskell Wexler e Bill Butler
8. Melhor Trilha Sonora Original (Drama): Jack Nitzsche
9. Melhor Edição: Rciahrd Chew, Sheldon Kahn e Lynzee Klingman

por Luís Adriano de Lima

3 comentários:

Kamila disse...

Um belíssimo texto pra um filme que merece muito! "Um Estranho no Ninho" é um grande longa, tanto que é um dos poucos a ganhar os cinco Oscars principais. A história dessa obra é muito forte. Muito mesmo. O final continua tendo um grande impacto mesmo se você já assistiu a este filme algumas vezes.

Ivanildo Pereira disse...

Obra-prima absoluta.

Serginho Tavares disse...

eu gosto muito do filme e discordo quando você diz que a Louise Fletcher não merecia a indicação e muito menos o Oscar. ela mereceu cada centímetro daquele Oscar por fazer uma personagem tão complexa parecer simples demais!