sábado, 2 de fevereiro de 2013

Bette Davis - Perfil



QUEM TEM MEDO DE BETTE DAVIS?

Cena do filme "Escravos do Desejo" (1934).
Fevereiro traz consigo duas novidades aqui. A primeira é a inclusão do Gustavo Pavan, dono do Cinemática, na equipe do E o Oscar foi para.... Com a saída do Alan Raspante da equipe, abrimos a vaga para o Gustavo, que trabalhou conosco em janeiro analisando a 61ª edição do Oscar, acontecida em 1989. Como uma saída é, de certo modo, uma “perda”, mas, ao mesmo tempo, como essa saída implicou uma mudança positiva, saúdo o Gustavo em nome da equipe. A segunda novidade é justamente o tema que será discutido ao longo desse mês: uma personalidade. Já analisamos cerimônias, já analisamos uma década toda de vencedores, mas ainda não havíamos selecionado uma pessoa cuja história acaba se fundindo com a do Oscar, objeto-máximo de nossa atenção. Assim, estreamos no mês de fevereiro um especial que deverá se repetir mais vezes. Vamos, então, ao que importa.

O ano era 1987. Bette Davis, sentada numa poltrona de frente para Barbara Walters, afirmou jamais ter parado de fumar. Também disse que ela e Margo Channing, sua personagem mais famosa, não têm muito a ver, a exceção do fato de serem atrizes. Acrescentou ainda, com humor ácido, que jamais disse aquela famosa frase – “what a dump!” – do modo como Miss Taylor disse no filme “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1966), mas que, a partir da reinvenção feita pela atriz inglesa nesse filme, Davis começou a reproduzir a fala naquele tom, passando, assim, a “imitar os imitadores”.

Jovem Bette Davis, antes do colégio.
Esse texto não tem intenção de ser uma biografia formal da atriz, mas busca apenas apresentar elementos fundamentais de sua vida que fizeram com que ela se tornasse uma das grandes atrizes do cinema norte-americano. Mais do que isso: do Cinema – com letra maiúscula mesmo, refiro-me à instituição cinema, aquela responsável há mais de um século por colocar em movimento uma série de idéias, ideologias e, sobretudo, ídolos. Quando se fala em cinema e em Oscar – o assunto primordial desse blog – é inevitável também não falar na atriz cuja carreira se construiu numa ambição feroz que incluiu inúmeras amizades, inimizades, prêmios e menções honrosas. E, pelo que se lê a respeito da atriz, do melhor ao pior que lhe aconteceu, tudo parece ter sido bastante merecido, uma vez que tudo foi mérito ou escolha sua.

Poderíamos falar que Bette Davis merece a homenagem da equipe do blog E o Oscar foi para... porque ela foi a primeira atriz a conquistar 7 indicações, tornando-se um marco. Na verdade, foi também a primeira a conquistar 8, 9 e 10 indicações. Mas receber várias indicações não quer dizer muito, então vamos a outro fato interessante: foi por causa de Bette Davis que os membros da Academia se revoltaram num determinado ano e ameaçaram não votar, uma vez que consideravam injusta a ausência da atriz na lista oficial das indicadas – por isso, 11 dias antes da 7ª cerimônia de entrega de prêmios, que ocorreu em 27 de fevereiro de 1935, os membros foram informados de que, se quisessem, poderiam votar até em que não havia sido nominada. Davis não ganhou, mas a campanha massiva dos atores a favor de seu nome significou muito, ainda mais para alguém em “começo de carreira”. Não podemos também nos esquecer de outro recorde de Bette Davis, este ainda não quebrado por ninguém: em 1943, tornou-se a atriz com o maior número de indicações consecutivas, somando 5. Somente a inglesa Greer Garson igualaria o recorde, o que aconteceu em 1946.

O segundo Oscar conquistado, em 1939.
Esses fatos são todos marcantes na biografia da atriz, mas existe um notável, o verdadeiro diferencial para que seja Bette Davis a nossa primeira homenageada: o apelido dos prêmios da Academia. Não se trata de um fato, mas é justamente a lenda que torna tudo mais interessante – à época casada com Harmon Oscar Nelson, a atriz comentou que o prêmio da Academia – ainda chamado apenas de prêmio da Academia – se parecia bastante com seu marido, Oscar. E aí ficou: a estatueta dourada de 34cm e quase 4kg, que é capaz de alavancar uma carreira (ou de não significar nada), recebeu da atriz seu apelido – pelo qual é, aliás, mais conhecido do que pelo seu nome original. Está certo, precisamos ser justos com a verdade ou, pelo menos, com o que pode ser verdade: existem outras lendas também acerca do surgimento do nome Oscar, mas nenhuma delas envolve, por exemplo, Katharine Hepburn, a maior vencedora de prêmios de atuação que, vale ressaltar, ganhou popularidade em Hollywood antes de Bette Davis. Desse modo, Davis sobressai, indubitavelmente. Davis, aliás, nas diversas entrevistas que concedeu, nunca admitiu ser de sua autoria o comentário que rendeu ao Oscar seu atual apelido, mas também nunca negou, deixando, pois, o mito permanecer.

Era 1930 quando Davis tentou sua primeira audição, que não foi bem sucedida. O rapaz do estúdio que foi ao local ao qual se encontraria com Davis acabou indo embora porque não viu ninguém ali que tivesse porte de atriz. Persistiu, tentou mais uma vez e, sem agradar muito, só não foi dispensada porque alguém disse que ela tinha olhos muito expressivos e foram justamente seus olhos que lhe garantiram espaço no filme “A Irmã Má” (1931), que foi sua estreia no cinema. A atriz, então, conseguiu contrato com a Warner Bros, mas todos os filmes dos quais participou não tiveram sucesso de crítica. Nesse período de dois anos (1931 e 1932), a atriz teve dois momentos fundamentais para o estabelecimento de sua carreira: primeiro, foi dispensada pela Warner Bros em 1931 e talvez jamais tivesse chegado ao estrelato se, depois, George Arliss não a tivesse escolhido ele mesmo para estrelar em seu lado o filme “O Homem Deus” (1932), que acabou recolocando Davis no cinema. Ela, mesmo nos últimos momentos de sua vida, jamais se esqueceu disso e sempre afirmou que o grande responsável por ela ter podido seguir carreira no cinema foi o ator inglês. Arliss foi o primeiro homem a quem Davis sempre se reportava com gratidão. O outro seria William Wyler, que, anos depois, segundo ela, seria o homem que a transformaria numa estrela querida e admirada pelo público.

Davis e Arliss no filme "O Homem Deus" (1932).
Aos 26 anos, Bette Davis estava sob contrato da Warner Bros e participou de 21 filmes entre 1931 e 1934, sendo que nenhum lhe propusesse algo realmente desafiador ou ao menos algo que apresentasse qualidade. Outro estúdio, no entanto, lhe apresentou um roteiro que lhe pareceu extremamente atraente – assim, Davis pediu a Warner que a concedesse a Radio-Keith-Orpheum (RKO), que produziu “Escravos do Desejo” (1934), filme que obrigou a crítica a olhar para Davis e a admirá-la, chegando inclusive a ver na sua personagem uma das primeiras vilãs genuínas do cinema. É nesse ponto que começamos a falar de Bette Davis, a atriz que conquistou a crítica –, mas, pelo que pareceu, não ainda a Academia, tanto é que foi ignorada naquele episódio que já comentei acima. Nem mesmo Claudette Colbert, a vencedora em 1935, acreditava que venceria Bette Davis e estava na estação, prestes a ir para Nova York, quando lhe buscaram, informando-a de que a vencedora havia sido ela. Davis ficou em terceiro lugar naquele ano, atrás de Norma Shearer, indicada por “A Família Barrett” (1934) e, óbvio, da vencedora. Vale lembrar que estar no elenco de “Escravos do Desejo” não foi muito confortável para Davis – o elenco não achava muito justo ver uma americana interpretando uma inglesa e, além do mais, o aparente affair que se desenvolveu entre Davis e Leslie Howard, o lead actor, criaria a eterna rivalidade entre ela e Joan Crawford, que estava envolvida num relacionamento com o ator.

Leslie Howard e Bette Davis em "Escravos do Desejo" (1934).
Veio então 1935 e, com ele, o filme “Perigosa” (1935), no qual Davis interpreta uma atriz fracassada cuja carreira pode se reerguer desde que não haja um certo alguém em seu caminho. Aliás, cabe aqui um parêntese: Davis se tornou de certo modo muito associada à decadência, especialmente porque seus melhores momentos em cena correspondem a personagens – atrizes, especialmente – em declínio. Joyce Heath, a tal perigosa do título, rendeu a Davis sua primeira indicação oficial, que aconteceu em 1936. O filme rendeu à atriz também o seu primeiro prêmio, do qual Davis nunca se orgulhou – para ela, era o pedido formal de desculpas da Academia por lhe ter ignorado no ano anterior. Em sua defesa, porém, pode-se dizer que, se não foi absoluto mérito, certamente não foi demérito também, uma vez que sua interpretação é bastante convicta. Até 1938, quando seria lançado “Jezebel”, filme pelo qual Davis receberia sua segunda indicação oficial e seu segundo prêmio, a atriz passou por maus bocados – apesar de ter feito “A Floresta Petrificada” (1936), nova parceria com Leslie Howard, o estúdio Warner Bros parecia não ter mínima vontade de lhe oferecer qualquer trabalho interessante, o que fez com que ela se recusasse a filmar e fosse pra Inglaterra, onde abriu um processo contra a Warner a fim de rescindir seu contrato.

"Perigosa" (1935).
Para sorte ou azar de Davis, a justiça não lhe concedeu razão e ela teve que voltar aos Estados Unidos, e a Warner dali para frente passou a tratá-la com mais respeito, entregando-lhe trabalhos de qualidade e lhe pedindo consultoria sobre as obras nas quais gostaria de trabalhar. Sem muito dinheiro devido à batalha legal que enfrentou, mas com novos projetos em mãos, iniciou-se uma nova fase, justamente a mais profícua de sua carreira, incluindo filmes como “A Mulher Marcada” (1937); o já citado “Jezebel”, de 1938; “Vitória Amarga” (1939), que lhe trouxe sua personagem favorita; “Juarez” (1939); “Meu Reino por um Amor” (1939), que foi seu primeiro filme colorido; “A Carta” (1940), remake de um filme homônimo da década anterior; “Tudo Isso e o Céu Também” (1940); “Pérfida” (1941); e “A Estranha Passageira” (1942).

"Jezebel" (1938).
Sobre “Jezebel”, se comenta ser uma versão prévia de “...E O Vento Levou” (1939), já que abordam praticamente o mesmo tema: a jovem sulista mimada cuja vida é transformada pela Guerra Civil. Além do segundo Oscar, esse filme também teve outro significado na vida de Bette Davis: William Wyler – homem que tornou a atriz numa box office-star, isto é, num fenômeno de bilheteria. Além disso, Wyler e Davis iniciaram um tórrido romance nessa época, apesar de a atriz estar casada há seis anos com Harmon Oscar Nelson e o diretor também ser casado. Começou a produção de “Vitória Amarga” no ano seguinte, mas Bette Davis não se sentia bem para continuar: o marido lhe havia pedido o divórcio e a atriz atravessava momentos difíceis que, segundo o produtor do filme, poderiam ser utilizados em prol de Judith Traherne, personagem do filme que descobre ter um humor que a matará, não sem antes cegá-la. Uma história mórbida, sem dúvidas, mas comoveu plateias, tornou-se a maior bilheteria de um filme estrelado por Bette Davis até o momento e rendeu à atriz sua terceira indicação. Durante a produção desse filme, Davis e George Brent, seu parceiro de cena, apesar dos problemas domésticos da atriz, se envolveram num relacionamento breve.

Bette Davis e Spencer Tracy.
A década de 1930 chega ao fim e no seu último ano, 1940, Davis estrela outro filme dirigido pelo seu amante William Wyler – “A Carta”, que lhe renderia nominação em 1941. Como uma adúltera que assassina seu amante e cuja mentira pode ser revelada devido a uma carta que ela escreveu, Davis interpreta uma personagem que já havia sido anteriormente interpretada por Jeanne Eagles no filme homônimo de 1929. Tanto Eagles quanto Davis foram nominadas devido aos seus desempenhos como Leslie Crosbie, sendo essa a primeira vez em que dois nominados ao Oscar recebem suas indicações pelo mesmo personagem. Até aquele momento na história do Oscar, apenas Spencer Tracy – nominado em 1937, 1938 e 1939 – havia conquistado nominações em três anos consecutivos. Portanto, Davis empatou com o ator nesse recorde. Até aquele momento também nunca uma mulher havia presidido a Academia. Eleita presidente em 1941, a atriz ficou pouco na posição de comandante. Queria reverter o dinheiro dos banquetes e oferecê-los às tropas americanas a fim de que se pusesse logo fim à guerra iniciada no ano anterior que vinha devastando tanto os soldados aliados quanto os inimigos. Quis também acabar com os banquetes, reestruturar a entrega dos prêmios, apresentá-lo sob novo formato. Os mais conservadores não gostaram, bateram de frente com ela que, de cabeça levantada, revidou, criando problemas. Não teve jeito: ou se dedicava a atuar ou a organizar a instituição de que ela chegou a insinuar ser, como presidente, apenas uma “figura decorativa”. 

Bastidores de "Pérfida" (1941).
Assim, optou por seguir a carreira de atriz em vez de criar brigas com a indústria do cinema e, nessas condições, renunciou alguns meses depois da presidência, focando-se nas interpretações. Nesse mesmo ano, depois da renúncia, trabalhava na produção de “Pérfida”, que marcaria a terceira vez em que William Wyler a dirigiu numa performance nominada e a sua quarta nominação consecutiva, quebrando aquele recorde com Spencer Tracy. O filme marcou também a última parceria dos dois, que brigavam incessantemente devido às tantas divergências que surgiam durante as gravações. Vale comentar que esse filme também ocorreu sob a tutoria da RKO, já que a atriz havia sido emprestada novamente ao estúdio pela Warner Bros. As quatro indicações consecutivas da atriz tornaram-se cinco em 1943, quando ela foi nominada outra vez – sua sexta nominação na carreira – pelo filme “A Estranha Passageira”, que marcou o cinema com a última frase de Bette Davis: “não peçamos à lua, nós já temos as estrelas”. Indicada em 1939, 1940, 1941, 1942 e 1943, a atriz, já um ícone do cinema, tornou-se recordista de indicações consecutivas, tendo seu recorde igualado por Greer Garson, indicada em 1943, 1943, 1944, 1945 e 1946.

Sets de "A Estranha Passageira" (1942).

A partir de 1943, começa uma nova fase de sua carreira, que começa a perder o viço. Nenhum filme muito relevante é feito nesse ano; talvez a única coisa mais notável tenha sido a produção de “Uma Velha Amizade” (1943), na qual Bette Davis e Miriam Hopkins se tratavam com o máximo da hostilidade, já que Hopkins dizia que Davis e Anatole Livtak, diretor do filme e seu marido, estavam tendo um caso. O ano seguinte também não foi tão favorável a Bette Davis: seu segundo marido havia morrido subitamente no final de 1943 e ela estava contra sua vontade na produção de “Vaidosa” (1944). Fez com que todos a odiassem – não respeitava as instruções do diretor, não seguia o roteiro, não aparecia para filmar algumas cenas, chegava atrasada, não deixava que os outros atores fossem embora porque algumas cenas ainda não haviam sido gravadas. Os resultados disso: ganhou novos inimigos e também uma nova indicação ao Oscar, a sua sétima em uma década.

Bette Davis e seu terceiro marido, William Sherry.
Em 1945, Davis se casou novamente e entre esse ano e 1949, Bette Davis diminuiu seu ritmo de trabalho, sobretudo devido à maternidade que veio em 1947. Nasceu sua filha, Barbara Davis, a quem a atriz se dedicou com afinco, chegando inclusive a pensar em abandonar sua carreira em função da criação da filha com quem Davis deixaria de conversar num polêmico momento de suas vidas. Em 1950, surgiu a oportunidade de trabalhar num filme “pequeno” – “A Malvada” (1950) –, no qual a atriz interpretava uma atriz cuja carreira se vê abalada pela vinda de uma jovem que aparentemente é só uma fã, mas que gradualmente vai tentando lhe roubar tudo. Davis gravou todas as suas cenas em apenas 16 dias, atravessou um processo de divórcio, conquistou a inimizade de Celeste Holm, chegando a dizer numa entrevista que a única vadia do elenco era ela, agradeceu a Joseph L. Mankiewicz por lhe ter tirado do aparente ocaso e marcou história no Oscar como a atriz mais nominada, recebendo sua oitava indicação. Celeste Holm pode ter se tornado uma inimiga, mas Davis havia conquistado mais do que apenas uma inimizade: havia concebido Margo Channing, personagem que marcaria para sempre sua carreira; havia feito uma amiga (Anne Baxter, que ironicamente, ao ser indicada na mesma categoria que Davis, foi um dos motivos pelos quais a atriz veterana não recebeu seu terceiro Oscar); e, também, havia encontrado em Gary Merrill, parceiro de elenco, o seu quarto marido e último marido.

Bette Davis, Marlon Brando e Grace Kelly no Oscar de 1955.

Já conhecemos três grandes períodos de Bette Davis: primeiro, aquele no qual era subjugada (1930-1936); depois, aquele no qual conheceu o auge, recebendo até o apelido de The First Lady of Film (1937-1943); então, seu momento de dramas pessoais e algum desencanto por parte da crítica e do público (1944-1950). Enfim, chegamos ao seu último momento enquanto atriz, que é logicamente o período mais extenso, justamente porque ele compreende todo o resto da carreira da atriz – mais de trinta anos que foram marcados por altos e baixos, além de duas lentas transições: do cinema para as TVs e do pleno reconhecimento a um apagamento muito gradual. Há quem prefira dividir a carreira da atriz em uma fase a mais, sendo esta entre 1951 e 1960 e então de 1961 adiante, mas não vejo ponto nesse esquema, pois é justamente a partir de “A Malvada” que ela começa uma fase mais “independente”, mais liberta de contratos com estúdios e mais livres para acertar e errar sob sua inteira responsabilidade. E pode-se dizer que, em relação ao cinema, apesar de alguns pequenos sucessos, Davis mais errou que acertou, recebendo ao longo desses primeiros dez anos mais críticas que elogios. E também nessa década que ela começa a ser mais frequente na televisão, aparecendo em séries.

Ocupando-se nos bastidores.
A década de 50 acabou marcada por dois momentos: os filmes “Lágrimas Amargas” (1952) e “A Rainha Tirana” (1955). No primeiro título, uma obra independente, a atriz, mais uma vez, interpreta uma atriz, Margaret Elliot, cuja carreira se vê na lama. Não apenas porque o público eventualmente se esqueceu dela, mas também porque ela não percebeu o peso da idade e insistia em investimentos descabidos, como personagens adolescentes quando ela mesma já havia passado dos quarenta anos. Davis, a atriz em visível decadência, havia interpretado Margo Channing, e as más línguas diziam que ela havia, afinal, interpretado a si mesma. Agora, com Margaret Elliot, mais boatos comparando a personagem à própria atriz. Apesar de ser um filme pequeno e sem grande destaque na mídia, a Academia concedeu-lhe outra nominação – a sua nona, quebrando seu recorde anterior. Quanto à produção de “A Rainha Tirana”, no qual Davis retorna à personagem que já havia interpretado em “Meu Reino por um Amor” – Elizabeth I –, Davis apenas provou uma coisa: os atores ainda a admiravam absurdamente. Não é à toa que, convidada a apresentar o vencedor na categoria Melhor Ator em 1955 no qual Marlon Brando venceu, a atriz ao entrar (com um tipo de turbante para esconder os cabelos raspados para o filme) foi aplaudida pelo público muito mais do que o próprio vencedor, que lhe apertou a mão com simplicidade antes de por fim ser envolvido pela atriz num abraço simpático. O cinema não significou muito nessa década; na TV, porém, participou de alguns episódios em séries, entre eles The Ford Television Theatre (1952-1957) em 1957, Studio 57 (1954-1956) num episódio lançado em 1958 e Alfred Hitchcock Presents (1955-1962) em 1959.

A década de 60 também foi atravessada sem muitos alardes, apesar do terceiro e último divórcio da atriz, de dois títulos que lhe trouxeram alguns elogios e um título que sem sombras de dúvida foi um verdadeiro estrondo e causou tumulto entre os críticos e o público. A primeira obra – satisfatória – foi a comédia fabular “Dama por um Dia” (1961), apresentando Davis como uma vendedora de frutas que precisa se disfarçar de mulher da sociedade para a visita da família, que pensa que ela é uma socialite. O filme de Frank Capra – o seu último, aliás – tem seu charme e isso acabou levando o público ao cinema.

A segunda obra – “O Que Terá Acontecido a Babe Jane?” (1962) – nem sequer precisa de qualquer informação sobre o enredo para causar interesse. Basta dizer que é um filme que reúne Bette Davis e Joan Crawford – sim, aquela cuja inimizade supostamente começou cerca de 30 anos antes quando Davis teria se envolvido com Leslie Howard durante o filme “Escravos do Desejo”. Ademais, outra informação sobre filme ainda sem falar efetivamente dele: Davis aceitou participar de “O Que Terá Acontecido a Babe Jane?” porque ela leu o roteiro e, lembrando-se de que apenas dois anos antes “Psicose” (1960) havia sido um sucesso de bilheteria, a atriz pensou que o público, tendo gostado de um, haveria também de gostar do outro. Por fim, agora adentrando o enredo, a obra aborda a história de duas irmãs – uma, ex-atriz louca (Davis); a outra, paralítica (Crawford) – que se veem obrigadas a conviver na mesma casa, uma sob a tutela da outra. O thriller levou muitas pessoas ao cinema para ver as loucuras daquelas duas cujas condutas cheias de pirraças aconteciam também nos sets de filmagem, não apenas na história. Por fim, a atriz, nascida em 05 de abril de 1908 em Massachusetts, celebrou os seus recém-completados 55 anos estando pela décima vez entre as cinco indicadas na categoria Melhor Atriz na 35ª edição do Oscar, que ocorreu em 08 de abril de 1963. Debochada que era, Davis ainda ousou dizer que, considerando as indicadas, a Academia não se atreveria entregar o prêmio a uma iniciante, referindo-se à favorita Anne Bancroft, atriz cuja carreira no cinema não era ainda popular e que naquela noite concorria por “O Milagre de Anne Sullivan” (1962). A décima e última indicação de Bette Davis foi marcada pela raiva: não apenas a vitoriosa foi a “novata” Bancroft como ainda, devido à ausência da vencedora na cerimônia, quem aceitou o prêmio em seu nome foi Joan Crawford.

Bastidores de "O Que Terá Acontecido a Babe Jane?" (1962). No centro, Davis e Crawford.

Ainda na década de 60, o terceiro dos três filmes que citei dois parágrafos acima é “Com a Maldade na Alma” (1964), outro thriller que reúne duas atrizes vencedoras de dois Oscar (Bette Davis em 1936 e 1939 e Olivia de Havilland em 1947 e 1950). Com 7 indicações no total, o filme teve boa repercussão e se tornou até aquele momento o filme de horror com o maior número de indicações – nenhuma delas, porém, a qualquer uma das protagonistas. Ainda assim, Davis parecia ver no thriller/horror um gênero bom a que recorrer, mas preferiu seguir gêneros variados, intercalando alguns filmes para o cinema entre as produções dos muitos filmes para a TV que passou a fazer. Vale comentar que é a partir de 1966, com o lançamento de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, que Bette Davis passa a imitar Elizabeth Taylor imitando Bette Davis!

Cena de "Morte no Nilo" (1978).
A década de 70 chegou sem muito barulho, destacando-se quatro momentos. Em 1974, recebeu sua primeira indicação ao Emmy pelo seu trabalho no especial ABC’s Wide World of Entertainment (1973). Em 1977, tornou-se a primeira mulher a receber o prêmio AFI Life Achievement. Oferecido pelo American Film Institute desde 1973, Bette Davis seria a primeira de seis mulheres a receber a honraria máximo do Instituto. Como título de curiosidade, as outras mulheres são as atrizes Lilian Gish (em 1984), Barbara Stanwyck (em 1987), Elizabeth Taylor (em 1993), Barbra Streisand (em 2001), Meryl Streep (2004) e Shirley MacLaine (em 2012). Pelo seu trabalho na televisão, Bette Davis recebeu em 1979 o seu primeiro Emmy pela sua participação como protagonista no telefilme “Duas Estranhas – História de Mãe e Filha” (1979) e, fechando a década, recebeu em 1980 sua terceira e penúltima indicação por outro telefilme – “Com Afeto contra a Violência” (1980).

Viagem a Nova York em 1985.
No começo da década, a atriz se popularizou na música Bette Davis Eyes. A atriz só descobriu a música porque sua neta lhe disse, e ela, sobre ser personagem de uma canção, alega ter achado engraçado. Vale lembrar que mais adiante, na mesma década, Madonna apresentaria Vogue, música que cita, entre outros nomes, o da atriz. O ano de 1983 foi feliz num aspecto e terrível em outro – a atriz recebeu sua quarta e última nominação no Emmy pela obra “Guerra Feita de Ódio” (1982) e também descobriu estar com câncer de mama. Em 1985, nem bem estava curada quando sua filha lançou o livro My Mother’s Keeper, falando sobre as dificuldades do convívio com a mãe. Mãe e filha jamais se falaram de novo, amigos foram em defesa de Davis, e a atriz tocou sua vida. Talvez seu último projeto mais relevante tenha sido “As Baleias de Agosto” (1987), dois anos antes de sua morte. Sua última coletiva foi em 1988, na qual disse o seguinte:

“Spencer Tracy foi o melhor ator do mundo. O mais bonito com quem trabalhei foi Errol Flynn, mas não gostava dele. Chegava atrasado e era mau ator. Com James Stewart, eu me casaria, se o tivesse conhecido na época certa. Ronald Reagan não foi bom ator, mas foi bom presidente. Gostava muito também de Gry Cooper, John Wayne e Clark Gable. Me dei muito bem com Joan Crawford. Os repórteres ficavam esperando uma briga entre nós, o que não ocorreu em momento algum. Já com Miram Hopkins, nossa relação foi desastrosa, ela tinha muito ciúme de mim. William Wyler e Edmound Goulding foram os principais responsáveis pelo meu sucesso”.

Livro lançando em 1987.
A atriz lançou dois livros de memórias nos quais discorre sobre os momentos que mais julgou importantes de sua vida, além, claro, de lançar alguns comentários sobre os bastidores, algumas amizades, inimizades, problemas etc. A atriz ao longo de sua vida não poupou desavenças nem grandes demonstrações de carinho. Numa passagem desse texto, afirmo que parece que tudo que lhe aconteceu foi devido às suas próprias escolhas e alguns casos parecem corroborar isso. Como não dizer que ela escolheu brigar com seu cunhado quando, sabendo que ele estava se reabilitando do alcoolismo, lhe enviou uma dúzia de licores como presente? Ou, então, recém-chegada em Hollywood na esperança de assinar logo um contrato, recusou-se firmemente a adotar o nome Bettina Dawes, optando por aquele que carregou ao longo de toda sua vida, redução de Ruth Elizabeth Davis. O que dizer, então, de sua irrevogável condição de, mesmo não consumindo a bebida, ter uma máquina de Coca-Cola nos sets de “O Que Terá Acontecido a Babe Jane?” só porque o marido de Joan Crawford, sua rival por anos, era CEO da Pepsi? Ainda, podemos citar, acrescentando mais fatos ao lado vilã de Davis, as tantas vezes que ela perseguiu com afinco um personagem num filme somente porque uma das atrizes consideradas para interpretá-lo era Miriam Hopkins, outra de suas rivais.

Bette Davis e Susan Hayward: uma relação de constantes desavenças.

Apesar dos seus desafetos, fez bons amigos. Sempre que podia, insistia para que Claude Rains (seu parceiro em “Vaidosa”, por exemplo) fosse contratado para contracenar com ela. Teve uma boa relação com Greer Garson, atriz britânica com quem ironicamente competiu 4 vezes, perdendo uma. Chegou até mesmo a dizer que em 1936, ano em que venceu seu primeiro Oscar, era Katharine Hepburn a melhor atriz ali indicada – curiosamente, foi Hepburn quem quebrou o recorde de Davis de intérprete com o maior número de nominações, conseguindo as suas décima-primeira e décima-segunda indicações em 1969 e 1982. Bette Davis também disse que queria chegar a trabalhar com Meryl Streep, atriz a quem ela chegou a enviar uma carta no começo dos anos 80 dizendo admirar seu trabalho e ainda dizendo saber que Streep seria a sua sucessora como “a maior atriz do cinema americano”. 

"Pérfida" (1941).

Não se fazem listas de intérpretes sem considerar o nome de Bette Davis – o AFI listou-a como a “segunda grande lenda do cinema” (atrás apenas de Hepburn); suas performances frequentemente aparecem em listas das melhores de todos os tempos e, definitivamente, Bette Davis é um nome que ajudou a construir a história do cinema, moldando-o, tornando-o o que ele é hoje, gostando nós ou não de sua personalidade ora hostil, ora gentil, ou daquele desprezo no olhar – lembrem-se: Bette Davis Eyes – que atravessa a tela e nos atinge sem dificuldades.



INDICAÇÕES:
1935 – Melhor Atriz: Escravos do Desejo (write-in nomination)

1936 – Melhor Atriz: Perigosa – venceu
1939 – Melhor Atriz: Jezebel – venceu
1940 – Melhor Atriz: Vitória Amarga
1941 – Melhor Atriz: A Carta
1942 – Melhor Atriz: Pérfida
1943 – Melhor Atriz: A Estranha Passageira
1945 – Melhor Atriz: Vaidosa
1951 – Melhor Atriz: A Malvada
1953 – Melhor Atriz: Lágrimas Amargas
1963 – Melhor Atriz: O Que Terá Acontecido a Babe Jane?

por Luís Adriano de Lima

3 comentários:

Joice disse...

Se me permitem um breve comentário, gostaria de parabenizar o autor pelo texto maravilhoso. Uma digna homenagem à uma lenda do cinema, sem visões estereotipadas, apresentando os fatos com a humildade que apenas os verdadeiros fãs tem. Se tem uma coisa da qual Bette Davis poderia se orgulhar, é dos fãs incondicionais que fez ao longo da carreira. E para muito além dela.

Kamila disse...

Que perfil completo, Luís Adriano! Parabéns mesmo pelo excelente trabalho! Para mim, a Bette Davis é uma das grandes atrizes de todos os tempos, além de ter sido uma das personalidades mais fortes e autênticas que Hollywood conheceu. Ela não tinha papas na língua. Valorizo demais isso nela.

KADU LIMA disse...

PASSEI A AMAR A DAVIS DEPOIS DE BABY JANE..A JOAN TAMBEM..ÇI SOBRE ESSA RIVALIDADE E VIM PROCURAR.ENCONTREI AQUI TUDO QUE PROCURAVA..QUE PRIMOR ..AMEI CARA DE VERDADE..INCRIVEL...BJAO