terça-feira, 27 de agosto de 2013

Roberto Benigni: "A Vida É Bela" (1997)



ROBERTO BENIGNI (27/10/1952 – Toscana, Itália)
Primeiro filme: Berlinguer ti voglio bene (1977)
Principais trabalhos: “A Vida É Bela” (1997), “Para Roma, Com Amor” (2012), “Sobre Café e Cigarros” (2003), “Uma Noite sobre a Terra” (1991).
Indicações ao Oscar: 1999 – Melhor Ator: “A Vida É Bela” (1997) – venceu
Indicados em 1999: Edward Norton por “A Outra História Americana” (1998) | Ian McKellen por “Deuses e Monstros” (1998) | Nick Nolte por “Temporada de Caça” (1998) | Roberto Benigni por “A Vida É Bela” (1997) | Tom Hanks por “O Resgate do Soldado Ryan” (1998).

Brasileiro que se preze externaliza um certo rancor quando ouve falar em A Vida É Bela” (1997), filme do italiano Roberto Benigni que, no Oscar de 1999, praticamente dizimou as chances que “Central do Brasil” (1998) tinha de levar o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Não parou por aí. Além desse festejadíssimo prêmio, também levou a estatueta de Melhor Ator, justamente Benigni, que também protagoniza sua fábula distorcida. Besteira ou não, me incluo nesses grandes defensores do filme de Walter Salles, que tem na atuação da dama Fernanada Montenegro seu principal argumento. Um primor, todos nós sabemos. Depois de jogar tudo no mesmo balaio, forcei a nudez dos preconceitos e, livre de qualquer opinião, me entreguei ao filme italiano.

Basicamente, o filme de Benigni se divide em duas partes, um duo sentimental, recheado de uma comédia às vezes descabida e, na maior parte do tempo, sem nenhuma graça. São piadas que aqui não causaria tanta comoção, porém elas fazem parte de um todo, de uma história que cresce gradativamente e vai, sem dúvida, chegar aonde quer. Então, o papel do espectador é bastante contemplativo e este vai ser testado muitas vezes ao longo da projeção. A emoção é genuína, de fato, mas padece de muita suposição, de muita beleza transposta para o sofrimento. Aí se tem um filme que cutuca a alma do espectador, querendo induzi-lo a um mergulho sem direção: assista a como esse homem viu o lado feliz da vida, quando tinha que amenizar questões que vão além de seu poder.

A primeira parte foca na relação que Guido (Benigni) tem com a mulher Dora (Nicoletta Braschi), uma paixão inocente, mas cheia de vida e de doação de ambas as partes. Nessa fase, o prêmio de Benigni fica levemente distante. Um trabalho normal, estável, em que o ator prova seu talento, mas não suplanta atuações como de Edward Norton, indicado por “A Outra História Americana” (1998), e de Tom Hanks, por “O Resgate do Soldado Ryan” (1998). A sinalização do prêmio vem mesmo na segunda etapa da obra do artista. O filme se passa nos anos 40 e Guido, agora separado de Dora, é levado para um campo de concentração junto com seu filho, seu maior legado. Sua intenção, no mesmo lugar onde o filme se torna mais tocante, é suavizar a noção de extermínio, escravidão e relações de poder entre raças, que tanto foram pregados durante o Holocausto, para que seu filho mastigue isso de forma branda e se sinta em casa. Guido é o escudo do filho, que distorce a verdadeira história, tendo a morte como uma possiblidade remota, pelo menos esquecida. Em Guido é diferente, ele sabe que o fim espreita.

O maior trunfo da caracterização de Benigni é a sinceridade com que abrange os temas propostos pelo filme. Exaustivamente, o ator veste-se de uma manta amável, enérgica e feliz demais que tudo se torna bastante distante. Por exemplo, “A Vida é Bela” não tem um pingo de sangue, nem sequer um nazista intragável que faz da vida judia o verdadeiro inferno. Numa visão mais universal, isso pode criar uma noção errada do terror que foi essa época, do quanto pessoas sofreram e do quanto deve ter sido impossível eufemizar essas questões tão cotidianas naqueles dias.

Benigni vence, quase que com certeza absoluta, pela temática que o filme aborda, tão apreciada pela Academia de Cinema há muito tempo. Não se pode ignorar seu talento, que é real, nem a beleza dessa relação que ele estabelece com o filho. Mas a tradução final não é tão eficiente, não ao ponto que vimos em 1999. A ingratidão dos percursos viáveis atingiu a vida desse filme e a vida real.
por Gustavo Pavan

3 comentários:

Kamila disse...

Vou repetir aqui o comentário que fiz no Facebook: Sendo curta e grossa: uma das piores vitórias da história do Oscar! Num ano de performances infinitamente superiores (Ian McKellen e Edward Norton são exemplo disso), ganhou alguém que interpretou a si mesmo. Lamentável! Um momento constrangedor...

André disse...

Filmão! "Bom dia princesa"

Anônimo disse...

Excelente filme...recomendo!
Os filmes brasileiros ainda estão longe de alcançar qualquer estatueta...