segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um Sonho Possível

Texto adaptado do original publicado no Blog Literatura e Cinema, de 12 de julho de 2010.

UM SONHO POSSÍVEL (The Blind Side, 2009, 129 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Lee Hancock
Elenco:  Sandra Bullock, Quinton Aaron, Tim Mcgraw.

Confesso que me deparei com uma situação que jamais imaginei: Sandra Bullock vencendo um Oscar. Acredito no talento da atriz e penso que ela seja uma artista plenamente capaz de realizar obras com qualidade; no entanto, sempre a vi em filmes medianos de comédia romântica que sempre serão lembrados pelos fãs de filmes light, mas que jamais seriam reconhecidos em grandes circuitos de premiação. Então, quando li um artigo que falava sobre rumores de uma possível indicação ao Oscar, minha vontade por conferir “Um Sonho Possível” apenas aumentou.

Baseado em fatos reais, o filme aborda a chegada de Michael Oher na família Tuohy. Leigh Anne, ao ver o jovem andando a esmo numa noite fria, decidiu acolhê-lo em sua casa por uma noite e essa “noite” se prolongou – Leigh Anne e seu marido aceitaram o jovem em sua casa, deram-lhe conforto, alimentaram-no bem, tornaram-se seus representantes legais. Paralelamente ao aconchego familiar, o jovem sucedia nos esportes, parecendo deixar claro que era um potencial jogador de futebol americano. Basicamente, essa é a premissa do filme.

Sabemos que tudo aquilo que é “baseado em fatos reais” parece ter um charme a mais. Sempre fico pensando se as vidas das pessoas retratadas são mesmo tão dramáticas quanto mostradas nos filmes. É essa a sensação que me dá quando assisto a filmes como “Johnny e June” (2005), “O Último Rei da Escócia” (2006) ou “Meninos Não Choram” (1999). Curiosamente, não tive esse pensamento em The Blind Side. Isso se deve ao fato de que não há qualquer drama na vida pacata e cômoda da família Tuohy. Tudo parece bastante ajustado e perfeito no mundo deles e eu até fiquei com a impressão de que, exatamente pelo ajuste em excesso, tudo estava desajustado. Uma mulher traz um desconhecido pra casa e permite que ele durma lá numa noite: isso é aceitável. Fazer do abrigo temporário uma moradia fixa em pouquíssimo tempo sem que qualquer membro da família se oponha me parece bastante inverossímil. Mesmo se não houvesse oposição, eu esperava ao menos que houvesse um questionamento que os fizesse se perguntar se aquela atitude era sensata ou não. Isso não acontece em momento nenhum e tudo é realmente muito simples! É curioso também pensar que não haja qualquer amostra de preconceito. Um estudante negro numa escola onde só há brancos exige uma cena que mostre que ele sofre preconceito. Se todos nós fôssemos como a Leigh Anne do filme – tenho certeza de que a pessoa real passou por muito mais problemas para conseguir o que queria –, e se todos vivêssemos no mundo fantasioso proposto pelo filme, tenho certeza de que não haveria mais pessoas carentes e desabrigadas – famílias de grande poder financeiro, afinal, os recolheriam – e não haveria qualquer tipo de guerra, justamente por se tratar de uma sociedade igualmente fantasiosa na qual desrespeito não existe e meia dúzia de palavras impactantes conseguem fazer com que traficantes fiquem paralisados.

Fiquei esperando pela cena-clímax; num filme de drama, essa cena usualmente apresenta conflitos de um personagem em relação a si mesmo ou em relação às outras pessoas e a tal cena normalmente mostra o desempenho que faz com que acreditemos que se deva a ela a indicação do ator ou atriz à tão cobiçada estatueta. Sandra Bullock, no entanto, não teve esse seu momento de glória. Sua atuação é linear e a sua personagem é tão plana que tenho a impressão de que ela permaneceu rigidamente inalterada do começo ao fim. Não culpo a atriz, que realiza uma boa performance e está correta. Talvez tenha faltado ao roteirista um pouco mais de empenho ao escrever uma cena que exigisse um pouco mais da atriz ou talvez tenha faltado ao diretor um pouco mais de ousadia para pedir que ela pelo menos chorasse de verdade na cena final. Talvez o maior erro seja do diretor, que simplesmente deixou Sandra Bullock alheia às reações normais das situações por que ela passa. Num acidente de carro envolvendo seus dois filhos, ela não chora, não se desespera, mal se move com alguma pressa; uma mãe provavelmente estaria tremendo de nervosismo. Ela não se exaspera diante dos comentários maldosos de suas amigas sobre o seu novo filho. Ela é boa demais, firme demais, controlada demais. Contraditoriamente, ela parece muito comum! Repito: não culpo a atriz, mas sim o diretor e o roteirista. Fica evidente que sua premiação foi muito mais angariada pelo seu momento artístico, que mobilizou milhões em bilheteria, do que pela sua performance aqui.

O filme se limita a Leigh Anne Tuohy e Sandra Bullock. Ou seja, todos os outros atores e personagens são apenas figuras que estão ali para dar suporte à linearidade assombrosa da protagonista. Nem mesmo o garoto, Michael Oher - que deveria ser protagonista da sua própria história -, tem importância na trama. Talvez se tivessem lhe dado mais destaque e tivessem nos mostrado a sua infância ou eventos anteriores à sua adoção, o filme seria mais dinâmico e teria mais emoção. Acho que o termo correto é: sem emoção. É exatamente isso que senti ao assistir “Um Sonho Possível” – que, vale ressaltar, é um péssimo título! Parece não aludir a nada que já não seja clichê o suficiente no filme. O título original pelo menos traz consigo a poesia de compreendermos que a reação em cadeira estabelecida no enredo: o garoto acaba jogando futebol americano com a função de proteger o lado cego de outro jogador; Leigh Anne, que o adotou, tem a função de proteger o seu lado cego – uma corrente simpática estabelecida que se perde nessa tradução infeliz.

Não é uma obra ruim, mas a sua falta de emoção e a comodidade da direção me fizeram considerá-la apenas “mais um filme”. Passado um mês depois de o ver, o espectador nem se lembraria dele. Se, por um lado, no que tange à arte, o filme é ruim, afinal ele não acrescenta nada, por outro lado, ele teve o seu grande momento: parece ter lançado a sua atriz principal a um novo patamar, que lhe permitiu sair de comédias despretensiosas e chegar finalmente às vistas de diretores mais clínicos e ferozes no comando das câmeras, como Stephen Daldry, que a dirigiu no péssimo “Tão Forte e Tão Perto” (2011) – no qual, aliás, Bullock, depois de Max Von Sydow, é a intérprete com melhor desempenho – e Alfonso Cuarón, que lançará no ano que vem um filme co-estrelado por ela e por George Clooney. Enfim, “Um Sonho Possível” é, no final das contas, uma obra cujo único grande trunfo ficou voltado para a atriz, cujo desempenho lhe rendeu bons louros.

INDICAÇÕES (1 vitória):
1. Melhor Filme: Gil Netter, Andrew A. Kosove e Broderick Johnson
2. Melhor Atriz: Sandra Bullock - venceu

por Luís Adriano de Lima

4 comentários:

Alan Willian disse...

Não curto em nada esse filme. Filme chato demais, vish...

Anderson Almeida disse...

achei espetacular....simplesmente espetacular...e nessa descriçao q fizeram do filme, metade nao concordo e é absurda...qto ao fato do preconceito,mostrou sim, os olhares q desferiram a ele em cada lugar da escola, ninguem sentando perto dele,as crianças saindo de perto do balanço qndo ele chegou perto da primeira vz,as amigas da "mae" dele (sandra bullock) entao!!mais preconceito só se ele fosse espancado pela concluscã (nao sei se escrevi certo.dane-se)e o comentarista disse q nao houve preconceito...kkk...qto a ser questionada a estada do jovem negro na casa foi sim, ela msm se perg "será que ele nao vai roubar nada"..perguntou pro marido se era péssima ideia, perg pra filha se ela se sentia mal..ahh me ajuda aí meu...opiniao é igual bunda cada um tem a sua,mas pelo menos justiça seja feita...ou dita

Anderson Almeida disse...

qto a filme ser chato...cara, quer assistir drama e pular de adrenalina no sofá???ah é simples, vá assistir mercenários, esquadrao classe A; e nao filmes de drama né...

Marcos Moura disse...

Perfeito...