quarta-feira, 3 de abril de 2013

Argo



ARGO (Argo, 2012, 120 min)
Produção: Estados Unidos
Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio, baseado no livro The Master of Disguise: My Secret Life in CIA (2000), de Tony Mendez, e no artigo The Great Escape (2007), de Joshuah Bearman
Elenco: Ben Affleck, Bryan Craston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Crochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler.

Não se abaixa a cabeça para grandes histórias, não se ignoram grandes feitos de heroísmo genuíno, bravura inabalável e disposição pioneira. Não nos esqueceremos dos grandes filmes, dos inesquecíveis diretores, dos inquestionáveis atores. Edificação, comprometimento, inovação, colaboração, interpretação. Afinal, o que faz de um filme um verdadeiro grande filme? Responsabilidade, coerência, emoção, produção, talento, julgamento. Afinal, me diz, o que faz de um filme um verdadeiro grande filme? Desculpem-me a arrogância, se isso puder parecer, mas será que “Argo” (2012) é realmente a obra-prima que muitos estão pintando por aí?

Ben Affleck já comeu o pão que o diabo amassou ao longo de sua carreira. Após um início glorioso, influência de seu Oscar de roteiro por “Gênio Indomável” (1997), Affleck andou bem perdido pelos becos e vielas do Cinema. Pisou em cacos na carreira de ator, se prevenindo de filmes mais pensantes e sensitivos, mas, ainda sim, permanecia vivo na mente do público. Como não lembrar do horror descabido que foi "Demolidor - O Homem Sem Medo" (2003)? Não dá. A carreira de Ben Affleck começou a dar um salto quando, em 2007, filmou o bom "Medo da Verdade", revelando-se um diretor infinitamente mais sensível em relação ao ator mediano que sempre foi. Depois disso, trabalhou no ótimo "Atração Perigosa" (2011) para chegar finalmente em 2012 e lançar o filme que definiria sua jovem caminhada.

“Argo”, acima de tudo, é uma injeção de cupcakes ao espírito nacionalista americano – vide a constrangedora participação de Michelle Obama na premiação do Oscar – que hora ou outra mistifica cada vez mais o "ser" americano no mundo de hoje, abraçando uma causa cívica que, provavelmente, sem querer acaba enaltecendo o modo de vida e a coragem no momento das realizações que só uma pátria e um único povo parecem ter.

Sem apelar para o extremismo – nisso Affleck se mostra bastante inteligente na condução da trama – e nem deixar o clímax cair, o roteiro vencedor do Oscar, do talentoso Chris Terrio, revisita um fato histórico, de 1979, que marcou a história de Hollywood e do governo americano, que se juntaram numa invenção gigantesca para resgatar seis refugiados no Irã, que se encontrava em plena revolução contra o sistema político nacional e a intromissão tão característica dos norte-americanos. Tony Mendez (Affleck, péssimo), agente da CIA, é o grande mentor do plano de fuga dos refugiados e, conforme o combinado, finge-se de diretor de Cinema, procurando locações em terras iranianas. O plano estabelecia a cada um dos refugiados um papel nessa fantasiosa produção, tornando quase impossível o descobrimento por parte dos rebeldes, que supostamente acreditariam na farsa.

O filme de Affleck começa muito bem. A narração rápida do começo causa tensão e promete um filme fervoroso, pronto para dar o sangue fictício a história de Tony Mendez. Logo depois, em fantástica habilidade técnica, o filme corta para as cenas de revolução nas ruas de Teerã, capital do Irã, em que os rebeldes ensandecidos, numa língua assustadora, ameaçam invadir a Embaixada dos EUA. O som é incrível, a montagem também beira a perfeição e a trilha sonora se traduz impecável, até que Affleck, o ator, entra em cena. 

Apoiado em câmeras estranhas, pouco inspiradas, Affleck começa a filmar a decomposição de todo o roteiro, os truques para colocar o plano em prática, a chegada ao Irã e finalmente a saída do país, com todos os seis refugiados salvos. Algumas das cenas se mostram primárias, os clichês mais bestas são vistos de olhos fechados, como a cena em que o personagem de Affleck fica olhando, com olhos marejados, a felicidade dos "reféns libertados", enquanto esses retribuem com olhar de agradecimento e veneração. Muito infantil. Affleck ainda conta com um Alan Arkin chato e um John Goodman "paquitão" transitando pelo seu filme. De forma geral, o elenco é bastante chato e os personagens montados demais; os diálogos são longos e pouco explicativos e, durante todo o tempo piadas hollywoodianas sem a menor graça vão sendo jogadas ao espectador, exemplo disso é a premissa "argofuckyourself", repetida mais vezes que o necessário por inúmeros personagens. Só pra não deixar passar, Argo é o nome do roteiro do filme-fake. Embora tenhamos um início promissor, o resultado final acaba por se revelar uma verdadeira besteira, totalmente esquecível como a maioria das questões levantadas pelo filme. Se você não for norte-americano, metade dessa história já não deveria ser tão fascinante assim.

Ben Affleck amadureceu? Sim, de forma espantosa. Mas daí até lhe responder com o Oscar de Melhor Filme é um tremendo exagero ufanista, que só não percebeu quem não quis. E ainda teve gente exigindo Oscar de direção, quiçá... de atuação.

INDICAÇÕES (3 vitórias):
1. Melhor Filme: Ben Affleck, George Clooney e Grant Heslov – venceu
2. Melhor Ator Coadjuvante: Alan Arkin
3. Melhor Roteiro Adaptado: Chris Terrio – venceu
4. Melhor Edição: William Goldenberg – venceu
5. Melhor Edição de Som: Erik Aadahl e Ethan Van der Ryn
6. Melhor Mixagem de Som: Gregg Rudloff, John T. Reitz e José Antonio Garcia
7. Melhor Trilha Sonora: Alexandre Desplat

por Gustavo Pavan

Um comentário:

Kamila disse...

Para mim, o maior mérito de "Argo" é enfocar o trabalho do resgate dos reféns e se eximir de comentar a situação política do Irã naquela época. Isso e o tom documental acertado da direção de Ben Affleck (no trabalho que marca a sua consagração como diretor) são as maiores qualidades de "Argo". Apesar disso, para mim, existiam filmes melhores na última seleção do Oscar.