terça-feira, 9 de abril de 2013

O Impossível



O IMPOSSÍVEL (Lo Impossible, 2012, 114 min)

Produção: Espanha

Direção: Juan Antonio Bayona

Roteiro: Sergio G. Sanchez, baseado no romance autobiográfico de Maria Belón

Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Marta Etura.


Existem filmes nos quais o protagonista é uma pessoa. Noutros filmes, o protagonista é uma situação. “Barry Lyndon” (1975), por exemplo, é um filme sobre a ambição de um homem; “Wall Street – Poder e Cobiça” (1987), por sua vez, é um filme sobre um homem ambicioso. “2012” (2009) é um filme criado para ressaltar o heroísmo de seus personagens centrais; já “O Impossível” (2012), objeto-foco dessa resenha, é uma obra sobre o quão dilacerador e terrível um determinado acontecimento pode ser.

Naomi Watts pode ter recebido uma indicação como Melhor Atriz esse ano por sua interpretação como Maria, a mãe de uma família que se vê apartada depois que o tsunami invade furioso a costa tailandesa, mas ela definitivamente não é a protagonista dessa história. Nem nenhum membro de sua família, apesar de o foco narrativo mostrar em momentos intercalados como cada familiar lidou com a situação nos momentos imediatamente posteriores à tragédia. O verdadeiro protagonista dessa narrativa é o desespero de não saber o que houve com os outros e a dor, seja ela física ou psicológica, de não saber se há como prosseguir.

Juan Antonio Bayona não espera muito para nos mostrar aquilo pelo que tanto ansiamos e, no começo da extensa cena que nos apresenta o trágico evento ocorrido em 2004, já nos sentimos angustiados e perturbados pelo que estamos vendo. No começo, é apenas aquela sensação tensa e crescente de que Maria e seu filho, Lucas, os dois únicos membros a quem se tem imediato acesso, são os únicos sobreviventes e, ainda assim, não o serão por muito tempo, haja vista a situação problemática na qual se encontram. Depois de invadir a costa, derrubar árvores, arrebentar os bangalôs do hotel no qual a família estava hospedada e arrastar todos que estavam na área de lazer, a natureza não se interrompe e continua a destruir tudo o que está na frente daquelas correntezas assustadoras – e Maria e Lucas seguem o trajeto que lhes parece de destino, sendo arremessados contra árvore, chocando-se com troncos, machucando-se, sofrendo com os atritos de seus corpos com tudo aquilo que está sob a água e que eles não veem. O diretor nos apresenta todo esse primeiro ato com eficiência, preparando o espectador ao final desse primeiro momento para um pouco mais de calmaria.

Ainda que não haja mais onda, o desespero continua – eu disse: ele é, não tenho dúvidas, o protagonista desse filme. Ainda eficiente, Bayona, diretor que já nos havia apresentado um excelente filme – “O Orfanato” (2007) – dá início ao seu segundo e mais dilacerador ato, cujo principal foco é nos fazer sofrer juntamente com a personagem de Naomi Watts, que se encontra na pior situação possível, com todo o corpo arrebentado, por dentro e por fora (isso só veremos mais tarde), mas que continua sua jornada numa tentativa dupla de encontrar sua família e encontrar para si mesmo algum conforto. Impossível. Se eu não soubesse que o filme é baseado numa história real, eu decerto acharia que o roteirista, sabendo quem seria a atriz principal e nutrindo por ela algum rancor, usou a personagem para lhe causar sofrimento, porque tanta desgraça parece mesmo impossível. Como disse lá em cima, o filme não se foca na personagem Maria, mas percorre toda a família, nos apresentando todas os caminhos percorridos pelos personagens para encontrarem uns aos outros. Nessa primeira parte do filme, conhecemos os terrores que assombram Maria e Lucas – mãe e filho – antes de o filme sair de sua verve mais trágica e adentar o melodrama.

Particularmente, eu não acho que o problema do filme esteja na direção. Acho, inclusive, que Bayona fez o possível para que o espectador não estranhasse os dois momentos bastante distintos do filme. Penso que o problema do filme – ainda que o espectador possa perfeitamente acompanhar a narrativa e, mais do que isso, se emocionar com o que vê (eu mesmo chorei demais) – seja o roteiro, que passa do foco brutal na dor física de Maria para uma história de encontros e desencontros no qual predomina uma sensação bastante diferente daquilo a que vínhamos vendo desde o começo. Talvez – assumindo que a culpa seja também de Bayona – sua falha tenha sido aceitar dirigir um filme cujo roteiro notadamente distingue dois momentos sem coloca-los numa continuação sutil, tornando-os sequenciais. Mas repito: isso de modo algum é um problema que impede o espectador de assistir ao filme.

Citando um colega cinéfilo blogueiro, Gustavo Pavan, esse filme “já esgotaria toda a cota de sofrimento que um artista deve representar na carreira” e eu não posso deixar de concordar, porque Naomi Watts foi verdadeiramente entregue à dor física mais do que ao desespero de não saber o que aconteceu ao resto de sua família. Vê-la em cena é torturante, tanto pra sua personagem quanto para nós e foi para mim mais incômodo do que ver inúmeras outras cenas que envolvam dor, como, por exemplo, uma cena brutal de tortura em “Ichi, o Assassino” (2001), filme de TakashiMiike que não poupa o espectador de brutalidades diversas. Naomi Watts não poderia estar mais perfeita – cada grito seu é uma dor em nós, que nos esquecemos totalmente de que ela é uma atriz e vemos apenas uma mulher nunca situação extremamente injusta que lhe põe à prova toda a sua resistência. Também nas palavras do colega Gustavo, “Watts, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel, come o pão que o diabo amassou e diante de tanto sofrimento posso entender a decisão da Academia, que entrega uma nomeação sem maiores justificativas”.

Ainda que, a meu ver, a dor transmitida por Naomi Watts seja o elemento verdadeiro impressionante do filme, a obra “O Impossível” conta com uma série de outros fatores que ajudam a aumentar a sua qualidade cinematográfica. O som é fantástico, aliando trilha sonora a exposição de “sons ambientes”, transmitindo ao espectador tudo aquilo de que ele precisa para se sentir inserido na trama. Então, a maquiagem, muito eficiente também, auxiliando ainda mais para a nossa crença de que Maria não viverá – talvez, nem mesmo Naomi – e, vivendo, depois de tanto estrago, decerto terá uma sobrevida. Como auxílio, há ainda um elenco de apoio bastante capaz, incluindo Ewan McGregor, que entrega uma cena bastante emocional e sincera, e Tom Holland, o ator-mirim intérprete de Lucas, que acabou injustamente esquecido nas temporadas de premiação. Para mim, “O Impossível” é o filme exemplar no quesito não-o-leve-tão-a-sério: vê-lo apenas, aberto às emoções que podem surgir ao longo da exibição, sem olhos minuciosos que procuram defeitos. Como disse, eles existem, mas não impedem de modo algum o espectador de assistir a uma boa história e emocionar-se. Não posso terminar sem desejar melhoras a Naomi Watts – não creio que ela não se machucou ao longo dessa produção.

INDICAÇÃO:
- Melhor Atriz: Naomi Watts

por Luís Adriano de Lima

4 comentários:

Kamila disse...

"O Impossível" foi um dos meus filmes favoritos da última temporada do Oscar. Adorei a forma como o diretor decidiu conduzir a sua história, por meio do fio da bondade e da solidariedade humana em meio a uma situação devastadora. O filme me comoveu de forma sincera e isso é mérito também das excelentes atuações do elenco, com destaque para Naomi Watts e o menino Tom Holland.

Anônimo disse...

Melhor filmer pra min q ja asistir na vida

Anônimo disse...

Um dos melhores filmes

Sabrina Araujo disse...

Esse filme e lindo, sempre que eu assisto eu choro.